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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 35. A doçura e o auto-domínio



 

 

A doçura do coração e o domínio de si próprio são dois aspectos complementares e que equilibram a personalidade cristã. «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração…» (Mt 11, 29). E são Paulo exorta assim os cristãos: «Estai vigilantes, permanecei firmes na fé, sede corajosos e fortes. Que, entre vós, tudo se faça com amor» (1 Cor 16, 13-14). A doçura do coração é uma doçura viril e o auto-domínio uma força plena de doçura.

A doçura é a rejeição da violência, da cólera e da irritação. A caridade não se irrita (1 Cor 13, 5), porque a cólera é fruto da carne (Gl 5, 20). Cristo mostrou que a violência contra o próximo pode assemelhar-se ao homicídio, condenada pelos dez mandamentos de Deus (Mt 5, 20-24). A violência, a cólera, a irritação, mesmo por palavras, têm a mesma origem no nosso coração que o assassínio do outro. Elas procedem de uma recusa de aceitar a existência do próximo tal como ele é e também de uma vontade secreta de o destruir por palavras ofensivas ou por gestos bruscos, pois a pressão social quer suprimi-lo pelo homicídio.

A violência tem no nosso coração uma raiz psíquica profunda: a agressividade. Ela é uma forma desviante da afirmação da nossa personalidade, que necessita de se definir em oposição ao outro e de defensa contra ele. A agressividade faz-nos esquecer que a nossa personalidade, que deve legitimamente afirmar-se na sociedade humana, não o pode fazer eficaz e permanentemente senão na certeza de uma vitória já adquirida e que não tem necessidade da violência para a realizar. O cristão sabe que Deus o ama, que o escolheu e salvou pessoalmente, que fixou a sua personalidade, segundo o seu carácter único, num domínio que não necessita ser defendido, porque nunca foi adquirido. Cada homem é precioso aos olhos de Deus que tem diante dele uma vocação única, um lugar inabalável. Ele não necessita de combater ou de se defender para afirmar uma personalidade que Deus ama muito especialmente e que consolidou progressivamente segundo a sua vontade. No coração do cristão, a agressividade é sublimada pela sua certeza de ser filho de Deus, amado, conduzido e fortalecido pessoalmente, como um ser único e insubstituível.

A doçura é uma atitude de não-violência. Cristo conseguiu a maior das vitórias pela doçura, na sua vida e na sua paixão, ele que foi horrivelmente tratado, que se humilhou, que não abriu a boca, como um cordeiro levado ao matadouro, como uma ovelha muda nas mãos do tosquiador (Is 53, 7). O cristão está chamado a seguir o mesmo caminho da não violência, com a certeza de que, pela doçura, ele terá todas as vitórias. Com efeito, o combate que ele trava é pela paz de Deus, e essa paz, para si e para os outros, não se obtém a não ser pela doçura. A violência pode impor temporariamente um poder ou uma opinião, mas ela não leva à obediência ou à convicção. Só a doçura não violenta penetra os corações na sua profundidade e leva à obediência a Cristo e à convicção da verdade. Nas suas reivindicações legítimas pela justiça, o cristão preferirá a não violência, sinal da doçura vitoriosa de Cristo; ele escolherá acima de tudo os seus métodos do que os de uma revolução violenta que conduz ao derrame do sangue. Não quer dizer que o cristão deva ser passivo e suportar as situações humanas, politicas ou sociais, inaceitáveis aos olhos da justiça de Deus, numa atitude conservadora ou reacionária. Mas, por causa da vitória da cruz, pela qual vem a alegria para todo o universo, o cristão está convencido do poder convincente da doçura da não violência. É, pois, para uma revolução mais eficaz e mais duradoira que ele escolhe as armas da doçura e da não violência.

«Felizes os mansos, proclama Cristo, porque eles possuirão a terra como herança» (Mt 5, 5). Esta não é apenas uma vitória espiritual prometida pela doçura, mas um verdadeiro poder sobre as realidades terrestres: os mansos (doces), que querem combater e convencer pela não violência, serão, pouco a pouco, os verdadeiros herdeiros da terra; eles conhecerão os poderes e as injustiças deste mundo, eles prepararão numa paz eficaz e duradoira a vinda do Reino de Deus.

O domínio de si equilibra a doçura, impede que se torne insípido, conserva a sua virilidade e a sua força. Ele é o poder que o cristão adquire sobre toda a sua pessoa, sobre o seu pensamento, a sua sensibilidade, a sua vontade, o seu corpo. Este poder não lhe vem de um esforço humano, mas do poder do Espírito Santo em si, invocado e procurado na vida de oração. É certo que o esforço pessoal pela disciplina espiritual é necessário para favorecer o consentimento de todo o ser às ordens do Espírito Santo. Mas, na origem e ao longo desse esforço de disciplina, o cristão reconhece sempre a acção sobrenatural de Deus, de tal maneira que ele não poderá atribuir a si próprio o que lhe foi dado por Cristo.

O cristão trabalha com ardor e disciplina no cumprimento da sua salvação; mas, segundo são Paulo, ele sabe que Deus está presente neste esforço suscitado pelo Espírito Santo, transmitindo-lhe a energia que produz nele a vontade de agir, em vista do cumprimento da sua vontade (Fil 2, 12-13). A disciplina espiritual do cristão, em vista do auto-controlo de todo o seu ser, é então essencialmente um consentimento à força do Espírito Santo, que lhe dá a força de querer e agir de acordo com as ordens de Deus.

Esse domínio de si próprio dá ao cristão um pensamento equilibrado que não escolhe posições excessivas, pelo espírito de contradição, mas que discerne com inteligência tudo o que é bom e positivo nas opiniões humanas, para deixar cair o mau e o negativo. O domínio de si aplica-se também à sensibilidade; o cristão procura dominar as suas paixões e a não fazer de alguma criatura de Deus o seu ídolo que penetra pouco a pouco no coração e no lugar de Cristo. O Cristão exerce assim a sua vontade, disciplinando-se para que possa aceitar mais facilmente as exigências que Deus impõe e as rupturas que lhe são exigidas. O cristão disciplina também o seu corpo, para poder obedecer às regras da oração e da santificação, para que seja transfigurado pelo fogo interior da caridade.

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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