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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 31. A vida em Cristo



 

 

A vida cristã é uma vida em comunhão com Cristo, graças à presença do Espírito Santo e para glória do Pai. Esta vida cristã encontra a sua fonte na verdade compreendida pela fé; ela alimenta-se pelos meios da graça, a palavra e os sacramentos, e pela oração, pessoal e litúrgica, ela realiza-se na vida humana quotidiana, social, familiar, comunitária.

Toda a vida do cristão entende-se na expressão de «vida em Cristo». Com efeito, a vida cristã não é uma observância de leis, mas resume-se no seu todo por um esforço de conformidade a Cristo, esforço dirigido pelo Espírito Santo que santifica o cristão.

«A vida é Cristo» (Fl 1, 21). Porque Cristo revelou o que deve ser o homem verdadeiro, é na comunhão com a humanidade de Jesus Cristo que o cristão realiza a sua verdadeira existência humana. É assim que São Paulo que Paulo nos dirige este convite: «Tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus: tomando a condição humana humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte na cruz» (Fl 2, 5).

Esta vida não consiste numa imitação exterior a Cristo, que nos seria impossível, mas numa comunhão com ele, onde o colocamos totalmente em nós, para que ele viva em nós e nos conforme à sua vida: São Paulo disse assim: «Estou crucificado com Cristo; e se vivo, já não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim; e a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2, 19-20). A vida do cristão consiste, portanto, numa morte a si mesmo, uma crucifixão do eu individual e egoísta, para que Cristo venha a possuir todo o ser e viva na pessoa que ele transfigura pela sua presença. O cristão continua a viver na carne; ele continua plenamente humano e a ser ele próprio; mas a vida da fé está estreitamente ligada ao Filho de Deus, conforma-o de tal modo ao seu amor e ao seu sacrifício, que ele como que arrancado de si próprio e pode dizer: «Já não sou eu, mas é Cristo que vive em mim».

A , suscitada nos nossos corações pelo Espírito Santo, une-nos a Deus, dá-nos a plena confiança em direcção a si e assegura-nos a verdade da sua revelação. Pela união a Deus, a confiança e a segurança em Deus que ela constitui, a fé domina toda a vida do cristão. Abraão é chamado o pai dos crentes, porque, pela sua vida e pela sua obediência, ele deu a todos os homens um exemplo de uma vida inspirada pela fé. Ao apelo de Deus, ele sai do seu país sem saber para onde iria; à ordem de sacrificar o seu filho, herdeiro da promessa, ele obedece sem conhecer como Deus continuaria a sua obra; mas o Senhor pára-o e dá-lhe o seu filho.

A vida cristã é, portanto, uma vida na fé. O cristão deve viver na certeza de que Deus só quer a sua alegria a sua felicidade. Esta vida na fé implica também para o cristão o espírito de pobreza que o faz depender só de Deus. O cristão sabe que, por ele próprio nada pode; portanto espera tudo da graça de Deus, e essa espera é uma atitude de fé. Este espírito de pobreza permite-lhe nada temer e até amar a pobreza material, na qual melhor do que na abundância, ele empenha-se em esperar só de Deus. Esta atitude de fé faz com que o cristão se alegre mesmo quando se sente fraco e privado de algo, porque é então aí que se manifesta o poder de Deus. A força e o êxito humano poderão fazer de tela ao poder de Deus. Ao contrário, na fraqueza toda a força se revela como vinda de Deus. «Quando sou fraco, diz são Paulo, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10)

A esperança, fruto da fé, dá ao cristão um optimismo invencível. A esperança dirige-se primeiramente ao cumprimento das promessas de Deus. O cristão vive na esperança do regresso glorioso, que espera cada dia, na esperança da ressurreição onde ele encontrará visivelmente tudo o que amou na terra, na esperança da vida eterna do Reino de Deus, vida de alegria, de paz, de amor e de louvor.

Mas a esperança dirige-se também ao futuro imediato da vida terrestre. O cristão sabe que Deus é sempre fiel às suas promessas e que ele quer realizar a felicidade de todos os homens.

O cristão espera sempre que o momento que vem será a realização feliz do momento presente, que amanhã será melhor que hoje; ele caminha, assim, de esperança em esperança. São Paulo diz que o amor tudo espera. Se o cristão está verdadeiramente possuído pelo amor, o amor de Deus e os homens, ele não pode ficar desesperar de si mesmo e dos outros; ele tudo crê e tudo espera. Existe uma aparente ingenuidade na esperança cristã, mas isso não é mais do que aparência humana; na realidade, a esperança que tudo espera, cria as condições favoráveis da mudança do coração e dos corações. Porque ela confia plenamente em Deus, a esperança invencível do cristão confia em todos os homens e opera assim a transfiguração das situações e dos acontecimentos. Tudo é graça para o cristão possuído pela esperança, mesmo as dificuldades e os sofrimentos, que fazem amadurecer a fé e a caridade. A esperança cristã gera um optimismo natural.

A caridade, fruto da fé, é um amor generoso e sacrificado a Deus e aos homens. A caridade é considerada por são Paulo como a maior. Com efeito, a fé e a esperança acabarão, logo que sejamos reunidos no Reino de Deus para a vida eterna; só a caridade, o amor por Deus e pelos homens, subsistirá eternamente. Deus é amor; o amor exprime a essência do próprio Deus, o amor é portanto eterno. A caridade une-nos primeiramente a Deus. Este amor a Deus não pode estar separado do amor a todos os homens. Jesus resumiu toda a Lei ao dizer: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 37-39).

Amar o seu próximo, aquele que vive consigo ou que se encontra, seja quem for, é agora amar a Deus nele, Cristo presente ou prefigurado nele; é por isso que o primeiro e o segundo mandamento de Cristo são semelhantes. Não podemos amar a Deus somente na fé e na oração; é necessário amá-lo também nos outros homens. E este próximo, este outro, é necessário amá-lo como a si mesmo. A compaixão de Cristo á tal que nos propõe um mandamento do amor à medida das nossas possibilidades. Porque nós sabemos quanto e como nós nos amamos a nós próprios, Cristo propõe-nos para o próximo, ao menos o amor que temos por nós próprios. O nosso amor de caridade é feito de amor e de generosidade. Temos de nos esquecer de nós próprios, vermo-nos no outro, para nos darmos a ele numa grande generosidade.

O amor de caridade não procura a satisfação pessoal, mas unicamente o bem e a alegria do outro; nesse sacrifício generoso, nós encontramo-nos, o coração dilatado às dimensões do amor de Cristo, e descobrimos a nossa maior felicidades ao mesmo tempo que a do outro, do próximo, do homem amado como nós e por Deus que o ama e nele e se revela nele.

A fonte da vida cristã é a vida em Cristo pela fé, esperança e caridade. Para o cristão, qualquer vida tem esta origem. Mas é evidente que fora da vida em Cristo, suscitando a fé, a esperança e a caridade, temos uma vida humana que se assemelha com a vida cristã. Os homens que não conhecem a Cristo podem viver moralmente como os cristãos: «Quando há gentios que, não tendo a Lei, praticam, por inclinação natural, o que está na Lei, diz são Paulo, embora não tenham a Lei, para si próprios são lei. Esses mostram que o que a Lei manda praticar está escrito nos seus corações» (Rm 2, 14-15).

Esta lei inscrita no coração do homem, dá-lhe a consciência moral que o poderá levar a actos dignos de um cristão; esse homem, se obedece a essa lei interior, pode mesmo parecer mais íntegro que um cristão que não viva em conformidade com a sua fé. A Igreja deve ter o maior respeito por estes homens rectos que obedecem à sua consciência, sem conhecer a Cristo, porque ela deve discernir neles a obra do próprio Deus, que a inscreveu no seu coração como uma lei moral preparatória e protegida.

No entanto, esta consciência e esta obediência morais não são suficientes para os conduzir à paz que não se encontra senão no conhecimento e no amor de Jesus Cristo. Esta lei inscrita no seu coração só os preserva da desordem moral, dá-lhes uma dignidade humana que os assemelha aos cristãos e prepara-os para receber a plenitude da vida, na fé, esperança e caridade cristãs.

Contudo, se eles não seguirem essa lei moral inscrita no seu coração, ela julga-os e manifesta a sua culpabilidade, que não poderá ser apagada senão no perdão concedido por Jesus Cristo.

A Igreja deve ter então uma atitude muito aberta em relação a todos os homens, porque ela sabe que a lei inscrita no seu coração não pode ser facilmente obedecida fora do conhecimento e do amor de Cristo. A Igreja fica maravilhada de ver tantos homens rectos que, fora da sua comunhão, levam uma vida digna e manifestam assim a providência de Deus; mas ela não julga severamente os homens que não podem obedecer à sua consciência, porque ela sabe que só a graça de Cristo pode dar ao homem a força da perseverança, que só o amor de Cristo pode dar ao homem a razão convincente e a eficácia móbil de uma vida sólida e fiel.

A vida cristã é uma vida libertada e equilibrada. Às vezes ela corre o risco de duas tentações contrárias: o puritanismo e o laxismo. A vida cristã implica por um lado certas rupturas com a vida natural de pecado; o cristão deve viver no mundo, mas sem ser do mundo. No entanto, estas rupturas têm por vezes a tendência a generalizarem-se. O cristão corre o risco de acreditar que será mais fiel se se separar do mundo, se se separar dos homens pecadores (como se ele não fosse também pecador), que viva uma pretensa vida pura sem qualquer contacto com a criatura envolvida com o mal. A vida cristã implica, pelo contrário, uma presença no mundo e uma liberdade na caridade. No entanto, esta presença e esta liberdade podem fazer o cristão correr o perigo de se deixar agarrar pelo espírito do mundo e pela atracção da sua vontade pessoal. O cristão pode acreditar que ele é tanto mais humano e livre não considerando o pecado, partilhando totalmente as angústias e as questões deste mundo e vivendo uma vida sem complexos e sem tabus.

A vida cristã não é nem puritana nem laxista; ela é feita de rupturas e de desprendimentos necessários para com a vida natural do pecado, mas ela é plenamente humana e livre em tudo o que não deve ser necessariamente rejeitado ou evitado. O cristão é um homem como qualquer outro, mas distingue-se somente pela caridade, que implica sacrifício em relação a si mesmo e a humanidade em relação a todos, na liberdade dos que não conhecem senão a lei do amor a Deus e do próximo. Este equilíbrio da vida nem sempre é fácil de guardar; nem sempre é fácil ver claramente qual a atitude a toma em certas circunstâncias. O julgamento da comunidade cristã universal será sempre mais seguro do que o da comunidade cristã local ou do indivíduo. É por isso que se deve submeter à atitude da Igreja, mesmo que nem sempre vejam a sua solidez ou se ele pensa que ela é susceptível de evolução na fidelidade à palavra de Deus.

A vida cristã está contida e resumida pela caridade, amor sacrificado e generoso de Deus e do próximo. São Paulo chamou a caridade como o primeiro fruto do Espírito Santo no coração e indicou depois todas as implicações desta caridade, por um lado na lista dos frutos do Espírito (Gl 5, 22-23), e por outro no hino à caridade (1 Cor 13, 4-7). Estes dois textos, que se sobrepõem em certos pontos, resumem toda a mensagem cristã sobre a vida.

Nos seguimos simplesmente a lista dos frutos do Espírito completada pelo hino à caridade, discernindo os diversos aspectos da vida que estes dois textos deixam aparecer. Não há uma ordem hierárquica de importância entre estes frutos do Espírito ou da caridade; eles aparecem livremente no movimento da meditação do apóstolo; eles são todos de igual importância e manifestam, cada um à sua maneira, o que é o amor da caridade do cristão fiel.

«O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio» (Gl 5, 22-23).

«A caridade é paciente, é prestável, não é invejosa, não é arrogante nem orgulhosa, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 4-7).

Segundo estes dois textos, nós vemos aparecer os frutos da caridade:

a alegria e a paz,

a longanimidade e a benignidade,

a bondade e a confiança,

a doçura e o auto-domínio,

a sobriedade e a humildade,

a pobreza e a pureza,

a generosidade e a misericórdia,

a justiça e a verdade.

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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