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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 33. A longanimidade e a benignidade



 

 

A longanimidade da caridade é paciente, indulgente, resistente e perseverante. Se a alegria e a paz têm a sua fonte na fé na ressurreição, a longanimidade é comunhão com a paixão de Cristo. Segundo São Paulo, a caridade é paciente (1 Cor 13, 4), ou seja, que o amor do cristão por Deus e para os homens é um amor de sacrifício, abnegação de si próprio e dom para os outros, que se modela sobre o amor de Cristo na sua paixão e sobre a cruz.

Cristo foi paciente. Paciência e paixão (no sentido de amor e sofrimento) são palavras familiares. Cristo amou-nos até ao sofrimento e à morte por nós na maior paciência. O amor da caridade implica o sofrimento na paciência. Porque a caridade não é um amor de possessão exclusiva, mas um amor de sacrifício generoso, ela está pronta a sofrer com paciência. O sofrimento purifica o amor, que às vezes corre o risco de se tornar possessão exclusiva. O sofrimento lembra ao homem que o seu amor pelos outros deve ser um esquecimento de si, um dom gratuito e generoso. A paciência é a espera confiante da alegria e da paz de Deus por meio do sofrimento. O cristão sabe, depois da ressurreição de Cristo, que não há sofrimento que não termine na alegria perfeita; é por isso que ele é paciente, tranquilo e pacífico, sabendo que Deus, num determinado momento, fá-lo-á saborear a alegria perfeita do amor e da caridade. O homem não pode passar por cima das etapas marcadas por Deus, ele não pode chegar à felicidade pelos seus próprios esforços; só Deus tem o segredo da sua felicidade e do tempo marcado para a sua realização. O cristão é chamado à espera paciente da alegria, que o leva a uma total dependência de Deus, na pobreza dos meios humanos e na certeza de que a força de Deus se cumpre na fraqueza.

Cristo foi indulgente. O cristão, paciente para com ele próprio, é também paciente para com os outros: ele é indulgente. Ele não é exigente para com o seu próximo; ele não tem pressa em vê-lo a adoptar os seus pontos de vista, mesmo que eles lhe pareçam melhores; ele não deve ter pressa em ver o progresso dos outros, progressos esses que lhe facilitarão as suas relações com eles; ele perdoa-os rapidamente e facilmente as suas faltas, sabendo que o amor de Deus cobre a multidão dos pecados. Para com os que se lhe opõem, ele terá a indulgência de Cristo que rezou pelos seus algozes: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem que fazem».

A longanimidade é ainda resistente. O cristão é um homem de coragem que sabe que a sua fé é exigente e pode conduzi-lo às situações difíceis do mundo, à própria perseguição, talvez ao martírio. A sua caridade longânime está pronta a tudo suportar por amor de Deus e dos homens. Ele pode ser tentado, em algumas circunstâncias, de mitigar as exigências da sua fé, para escapar das dificuldades; ele sabe que lhe falta ainda a verdadeira caridade, porque ele não consegue ainda testemunhar a Cristo crucificado e não pode ainda ajudar os homens, seus irmãos. É claro que não é sempre fácil para o cristão saber até que ponto pode ir a aceitação das exigências deste mundo, de um poder humano, de uma situação concreta, sem que a sua fé seja ferida na sua pureza e o seu testemunho fraco na sua claridade. Ele pode ter ainda uma exigência excessiva da fé, que acredita e entretém-se com dificuldades inúteis para o testemunho cristão e até prejudicial à verdade e à caridade. O cristão deve manter-se no equilíbrio de uma fé fiel ao essencial necessário e de uma caridade livre no que diz respeito aos elementos secundários. Mas de qualquer modo, o cristão tem a resistência da fé e da caridade, que pode ser para ele uma participação na cruz de Cristo na sua carne.

A longanimidade é finalmente perseverante. A vida às vezes parece muito longa ao homem que combate na existência cristã. Ele pode dizer como são Paulo: «Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós» (Fil 1, 23-24). O cristão está nesta tensão: que acabe o combate da vida, pela morte que o unirá a Cristo na paz ou pela vinda gloriosa do Senhor que o ressuscitará para a vida eterna; que dure a alegria da vida para a felicidade dos que o rodeiam. Mas, nesta tensão, ele entrega-se inteiramente a Deus que sabe o que nos convém e que, com as dificuldades do combate, dá a superabundância das graças compensadoras. O cristão deve estar preparado para uma longa perseverança no combate da vida cristã e deve-se armar cada dia para que este combate, pelo renovamento da fé, da esperança, do amor e da oração. Nesta perseverança, ele encontra também a alegria de uma profunda comunhão com os seus irmãos, que como ele, ou mais do que ele, devem lutar neste mundo por perseverar até ao fim do qual só Deus conhece o momento. Esta perseverança, à imagem da de Cristo a caminho da cruz, permite ao cristão partilhar também o longo sofrimento de tantos homens que não têm a esperança de Cristo para esclarecer o seu duro caminho. Nesta perseverança, o cristão encontra então a alegria de estar plenamente unido aos outros homens para vir em seu auxílio no longo caminho da vida.

A benignidade é o desenvolvimento e a solicitude da caridade. O cristão é servo de Deus e servo dos outros. A caridade é benigna (1 Cor 13, 4). Cristo quis ser o servo dos seus discípulos. Levantou-se entre os apóstolos uma discussão para saber quem de entres eles poderia ser o maior. Jesus disse-lhes: «O que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve… Eu estou no meio de vós como aquele que serve…» (Lc 22, 26-27).

O cristão, a exemplo de Cristo, deve fazer-se o servo dos seus irmãos e de todos os homens. Não se pode considerar como o maior, ou como um grande no meio dos outros, mas ele deve mostrar-se sempre dedicado e solicito para servir os outros. Mesmo se ele tem um cargo de autoridade, ele deve considerá-lo como um serviço e comportar-se como o último na comunidade cristã. Para governar é necessário saber servir e o governo na Igreja é uma forma humilde do serviço aos outros. O cristão é um testemunho e um sinal de Cristo servidor no meio dos seus.

No acto do lava-pés aos seus apóstolos, na noite da sua paixão, Cristo deu ao serviço toda a sua dimensão espiritual. O lava-pés é um sinal do ministério de Cristo como servidor; o cristão deve realizar na sua vida este serviço em que o Mestre lhe deu o exemplo. O lava-pés é um sinal de caridade humilde e de participação no ministério de Cristo. Enquanto a Igreja realiza liturgicamente este sinal, em quinta-feira santa, ela canta a antífona: «Onde houver caridade, o amor, Deus aí está». O serviço, simbolizado pelo lava-pés, é um sinal da presença da participação na obra de Deus em Jesus Cristo. A Pedro, que recusava este gesto, Cristo disse-lhe: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo» (Jo 13, 8). O cristão que tem um ministério de autoridade na Igreja deve saber que os que estão encarregados de conduzir podem partilhar as preocupações do seu ministério, admiti-lo de bom grado, porque se ele é o seu servidor dedicado e solícito deve dar sinais dessa vontade de servir a exemplo do Mestre. Este humilde serviço é um sinal da participação na autoridade de Cristo.

Pelo espírito de serviço na caridade humilde, aquele que tem a autoridade na Igreja manifesta que a sua autoridade vem de Cristo servidor que lavou os pés dos seus apóstolos. Por outro lado, ele torna a sua autoridade fraterna, simples e acessível; os que estão perto do que exerce o seu ministério sente-se em confiança, porque eles não estão dominados, mas conduzidos humanamente, servidos humanamente, amados fraternalmente; eles participam nos cargos e nas preocupações da autoridade, com um coração pronto a servir a todos. Assim, a autoridade na Igreja participa da autoridade de Cristo servidor e faz participar os outros neste serviço de Deus e dos homens.

Pelo serviço, o cristão participa na humildade e no serviço de Cristo que sofreu a humilhação e o sacrifício da cruz. Como a longanimidade, a benignidade é comunhão com a paixão de Cristo por todos os homens.

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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