Logotipo - Igreja do Convento de São Domingos
Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 16. A Ressurreição



 

 

Tendo cumprido todo o percurso terrestre como homem, até à morte, o Filho de Deus alcança a vitória da ressurreição, primeiro acto de um tempo novo, o tempo da ressurreição para a vida eterna de todos aqueles que se unem a ele na fé, na esperança e no amor.

Pela sua ressurreição, Cristo leva consigo toda a humanidade num movimento de renovação radical. Pelo poder da ressurreição de Cristo, a Igreja poderá fazer milagres: ela transformará as vidas, ela renovará os corações, ela cura os próprios corpos.

No momento em que o corpo de Cristo realmente morto acorda para a vida, na manhã de Páscoa, produz-se uma mudança radical na natureza humana e em toda a criação. O corpo humano, até aqui forma limitativa da pessoa, torna-se o suporte concreto e visível do ser eterno, capaz de se mover e de transpor os obstáculos materiais, sem qualquer limitação.

O corpo visível do Ressuscitado deixa-nos entrever que será o corpo que nos assegurará uma vida concreta, já sem limitação, na eternidade total do Reino de Deus.

Mas a ressurreição de Cristo não produz somente um efeito miraculoso sobre a a natureza humana. É toda a criação que se encontra renovada, como uma nova criação. As energias sobrenaturais que se libertam da explosão cósmica da ressurreição de Cristo, alcança todo o universo criado. Poder-se-ia comparar a ressurreição de Cristo a uma gigantesca explosão atómica, que alcança progressivamente todos os elementos da criação não deixando nada intacto, uma explosão que não será desintegrante e destruidora, mas reintegrante e ordenante. Portanto, a ressurreição de Cristo, rompendo com a ordem natural da criação decaída, alcança, pelo seu poder, o coração de toda a criatura para lhe insuflar o Espírito vivificante que opera uma nova criação. Este processo de renovamento da criação, pelo poder da ressurreição, opera-se progressivamente para encontrar, no Reino, o seu cumprimento perfeito. São Paulo fala da criação que geme e sofre as dores de parto, juntamente com os cristãos que possuem as primícias do Espírito.

Pela ressurreição, que renovou toda a criação, todos os elementos deste mundo assumem um sentido e são orientados para a glória do Reino. Existe uma convergência de todos os elementos da criação para o seu fim, graças a esse poder da ressurreição de Cristo que reanima e reorganiza todo o universo.

É assim que, para a Igreja e para o cristão, nada sobre esta terra pode ficar indiferente ou excluída. A vida espiritual não consiste em se separar do mundo criado, mas em reconhecer a obra escondida do Ressuscitado, para a oferecer em louvor a Deus e contribuir deste modo a essa libertação progressiva da criação agarrada ao pecado, à passagem de toda a criatura para o Reino eterno. Existe um carácter profundamente cósmico da ressurreição que transfigura a natureza.

Pela ressurreição, Cristo foi estabelecido como Senhor do mundo. Ele domina invisivelmente mas realmente sobre todas os poderes e sabedorias deste mundo. A Igreja e o cristão, proclamando essa senhoria universal de Cristo, procuram discernir os traços por onde eles se manifestam. É certo que, a verdade sobre Deus, o conhecimento teológico cristão, não se pode descobrir a não ser na revelação da Palavra de Deus, na Escritura conhecida e interpretada pela Igreja através da tradição. Mas Cristo Senhor é mestre do mundo, ele dirige todo o poder e toda a sabedoria. Assim pode ser que a verdade se encontre onde o Senhor a queira manifestar. Na verdade, o critério de avaliação dessa verdade será somente a Palavra de Deus, mas a Igreja deve alegrar-se sempre da verdade, do belo e do bem, onde ela o encontrar.

A senhoria de Cristo leva a Igreja a um optimismo elementar em relação ao mundo, da ciência, da filosofia, da religião e mesmo da política. O Senhor ressuscitado e glorioso reina sobre todas as coisas e pode querer que, nos seus esforços, científicos, filosóficos, religiosos e políticos, os homens revelem uma parcela de verdade e actuem para glória de Deus.

A Igreja esclarecida pela Palavra de Deus, animada pelo optimismo da soberania de Cristo, está vigilante e atenta para descobrir a verdade, a beleza e a bondade onde elas se possam encontrar, para os conduzir para a plenitude que está na verdade total: Jesus Cristo. Quando o fogo arde na noite, podemos perceber as faúlhas perdidas na escuridão. As faúlhas, se bem que separadas das chamas, não podem sair senão do fogo. Assim também com os elementos de verdade dispersos no mundo; eles não podem vir senão de Jesus Cristo, fonte de toda a verdade.

Cristo Sabedoria, Senhor ressuscitado e glorioso, que controla todo o pensamento, conduz ele próprio a procura dos sábios e dá-lhes a medida necessária para descobrir tudo aquilo que possa aumentar o conhecimento e a alegria do homem. Os sábios podem medir esses dons de Deus, mas esses dons não serão senão manifestações da verdade que está em Jesus Cristo, fonte de toda a verdade.

Cristo, Mestre, dirige também a sabedoria dos filósofos e permite-lhes organizar as descobertas humanas numa síntese que glorifica a sabedoria do Criador de todas as coisas.

Cristo, Senhor, está também por detrás das buscas religiosas dos homens que não o conhecem, dos ascetas não-cristãos que procuram submeter a sua vida ao espírito. Ele fá-los aceder à contemplação de Deus e prepara-os para receber a plenitude do amor, que é ele próprio. Ele sustem-nos na sua vida espiritual e moral. Ele aceita o seu culto, mesmo elementar, e concede-lhes uma comunhão espiritual que lhes dá uma alegria provisória e preparatória à alegria da comunhão perfeita da eucaristia.

Cristo, Rei, conduz a política do mundo, apesar de todos os meandros dos seus interesses e das suas paixões. Ele não permite aos governantes o que não pode contradizer a história, feita por ele próprio. Ele esclarece-os, sem que eles saibam ou reconheçam, nas suas decisões que contribuem para o bem da humanidade.

Um dia, no final dos tempos, ser-nos-á concedido reler a história do mundo à luz de Cristo e compreender tudo aquilo que ele inspirou e dirigiu, no poder e na sabedoria da soberania universal.

(fr. Max de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op)

R. João de Freitas Branco, 12, Lisboa, 1500-359 Lisboa
Tel: +351 217 228 370 | | E-mail: