Logotipo - Igreja do Convento de São Domingos
Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 26. A Confissão



 

 

O ministério da absolvição faz parte da missão dos apóstolos e da Igreja. Jesus comparou e significou este perdão através da cura de um paralítico. A Igreja declara a absolvição dos pecados, ela levanta miraculosamente um homem paralítico pelas suas faltas. Ela realiza uma obra de ressurreição espiritual; é o Ressuscitado que, na tarde do dia de Páscoa, conferiu aos seus apóstolos, e por eles à Igreja, o poder e a missão do perdão. O Senhor disse-lhes: «A paz esteja convosco; como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós». O Pai enviou o Filho, que tinha sobre a terra o poder de perdoar os pecados, e o Filho envia igualmente a Igreja com o mesmo poder. «Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 22-23).

O sopro do Espírito está relacionado com a vida, com a cura e a ressurreição. O Criador sopra para criar um ser vivo. Elias sopra para restituir a vida a um moribundo. Ezequiel invoca o sopro do Espírito para a reedificação do povo de Deus. É nesta perspectiva de cura, de ressurreição, de recriação, que nós devemos compreender este gesto de Cristo; o dom que ele fez aos seus discípulos é um dom de ressurreição espiritual. A Igreja recebe o poder de fazer reviver espiritualmente um ser pela remissão dos pecados. Porque o pecado priva-nos da verdadeira vida recebida no dia da criação e renovada em Jesus Cristo, é necessário o sopro do Espírito Santo para nos ressuscitar. É necessário que a Igreja use este dom do Espírito recreador que Cristo transmitiu aos apóstolos.

O dom que os apóstolos receberam na tarde do dia de Páscoa não deve ser identificado com o dom de anunciar a boa nova. A promessa de Cristo, primeiro a são Pedro e depois a todos os apóstolos, segundo a qual tudo o que a Igreja ligar sobre a terra será ligado no céu e tudo o que ela desligar será desligado (Mt 16, 19; 18, 18), compreende todo o ministério apostólico. É em vista da totalidade deste ministério que os apóstolos recebem no Pentecostes a plenitude do Espírito Santo; mas aqui, é um dom particular. Os apóstolos e a Igreja proclamam o Evangelho e perdoam os pecados. Eles recebem um carisma, uma promessa, uma missão, um ministério especial. Este ministério é então um aspecto do poder das chaves que se deve entender de toda a obra da Igreja no seu conjunto em vista da libertação do homem. Este dom, esta promessa, esta missão, este ministério, é o poder da absolvição. Não se trata só do ministério da pregação, mas realmente de uma palavra e de um acto que realizam aquilo que significam. Cristo não disse que os pecados serão perdoados àqueles que, pela sua fé, se apropriarem da promessa de perdão, anunciada na pregação. Ele disse «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados». Temos aqui um exemplo de um acto sacramental. Com efeito, há a acção sacramental porque, sobre a promessa de Jesus Cristo, a Igreja acredita que Deus actua conjuntamente e eficazmente num sinal que dirige ao crente.

Faz-nos falta considerar aqui a utilidade espiritual do sinal da absolvição que se junta à simples pregação do perdão. Nós tocamos aqui na distinção necessária entre o anúncio da palavra de Deus e os sinais sacramentais. Na Palavra escrita, pregada, a promessa de Jesus Cristo é-nos anunciada. Nós podemos, pela fé e pela oração, obras do Espírito Santo em nós, fazer com que essa promessa se torne uma realidade. Eu posso perceber uma pregação sobre a infinita misericórdia de Deus e realizar eficazmente o perdão, se eu receber essa pregação num verdadeiro acto de fé e num espírito de oração. Mas eu posso não entender ou não escutar verdadeiramente esta mensagem de libertação. Eu posso duvidar que ela possa dirigir-se a mim pessoalmente, posso achar-me insuficiente ou ao contrário muito pecador. No sacramento, Deus reforça a fé do crente, mesmo sendo frágil, e realiza nele e por ele a obra significada pelo sacramento, infinitamente para ale, de tudo o que ele procura e pensa.

No sinal da absolvição, a misericórdia de Deus não é somente uma proposta á fé e à oração como uma promessa realizável, mas àqueles a quem a Igreja, fundada por Jesus Cristo e sobre os apóstolos, perdoa os pecados, eles serão pessoalmente e actualmente perdoados. O sinal da absolvição confere, portanto, eficazmente o que significa.

É necessário que a palavra de Deus, que anuncia a promessa da misericórdia feita por Jesus Cristo, concretiza-se no sinal da absolvição e que o crente realiza de que a absolvição dos pecados não é somente uma esperança, mas um facto actual ao qual ele se pode agarrar com toda a sua fé.

Mesmo quando estamos bem orientados sobre a confissão, podemos deparar-nos com diversas dificuldades práticas. Antes de mais o perigo do hábito, com o risco de atenuar o sentimento de arrependimento e a alegria da absolvição. Dizemos a este propósito, como sobre eucaristia, que não preciso esperar primeiro uma emoção psicológica. Se a absolvição tem um valor sacramental, ela produz o seu efeito de remissão dos pecados e de reconciliação com Deus, ela reaviva a nossa amizade com Cristo e renova a nossa comunhão com toda a Igreja, independentemente de qualquer sensação física. A alegria e a paz são os dons que Deus nos pode conceder, mas não são obrigatórios para que a confissão seja verdadeira. A consciência do pecado, o arrependimento sincero e a fé na misericórdia de Deus, bastam para tornar verdadeira a nossa confissão. Não é porque a eucaristia ou a confissão nos emocionem que eles tenham mais valor. Cristo está presente e os pecados são perdoados sem que a nossa sensibilidade vibre necessariamente.

Uma outra dificuldade consiste no facto de que o nosso pecado é frequentemente o mesmo e que nos vemos na obrigação de confessar sempre as mesmas coisas. Talvez haja um defeito do exame interior, que faz com que estejamos virados para um só aspecto do nosso estado de pecador. Pertence ao director espiritual chamar à atenção sobre um pecado ignorado ou ficado em silêncio, porque é visto como uma falta que talvez seja menos grave e preocupante. No entanto, é certo que não nos livramos de um dia para o outro de um pecado particular pela absolvição. Lembremo-nos que o objecto primeiro da confissão não é a libertação psicológica, mas a certeza espiritual do perdão de Deus. Mesmo sabendo que a libertação não será rápida, é necessário pedir o perdão e receber na fé a remissão dos pecados.

Poderíamos comparar a absolvição a um remédio que é necessário tomar, para viver, mesmo pensando que não nos trará imediatamente a cura.

A certeza da misericórdia de Cristo, alimentada pela absolvição, é indispensável para uma vida espiritual completa. O cristão procurá-la-á para aprofundar a sua vida interior, mesmo se ele não se liberta de um pecado que confessa sempre. Temos de ver também na absolvição sacramental um mistério que, reintegrando o homem em Cristo, o faz tocar no mundo que há-de vir. Como com a Eucaristia, ele encontra-se numa situação escatológica. Ele vive de uma forma antecipada o regresso de Cristo e encontra-se portanto, no tempo do sacramento, com as disposições de santidade e de pureza e será recompensado pelo Senhor no último dia.

O mistério sacramental da confissão é como um banho necessário que nos lava, mas que não nos impede de nos manchar novamente. Só a fé e a obediência, como prolongamento do sacramento, nos podem permitir chegar a uma vitória, parcial neste mundo e definitiva no dia da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta tensão entre o sacramento, que nos faz tocar no outro mundo, e a vida, que nos faz imerge no tempo, leva-nos a dizer com os primeiros cristãos com grande esperança: «Maranatha, vem Senhor; o Senhor vem».

(Ir. Max, de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op)

R. João de Freitas Branco, 12, Lisboa, 1500-359 Lisboa
Tel: +351 217 228 370 | | E-mail: