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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 5. A fé muda-se?



 

 

A Palavra de Deus, contida na sagrada Escritura, lida e proclamada na Igreja, exprime-se na vida da Igreja sob a forma de tradição.

A tradição é: a vida da Palavra de Deus na Igreja, o acto pelo qual a Igreja transmite a Palavra e o dom resultante desta vida e deste acto.

Os actos e as palavras de Cristo foram primeiramente transmitidos por tradição oral. Pouco a pouco os escritos foram aparecendo e foram reunidos no Novo Testamento; mas estes escritos não travaram a tradição que os geraram; a tradição continuou a dar uma explicação viva a esses documentos inspirados. Certamente os escritos inspirados, por causa da sua estabilidade, vieram a ser uma norma para a vida da Igreja, para a sua tradição viva; É natural que a Igreja se refira aos escritos inspirados para justificar a sua tradição viva. E a tradição reflecte-se de maneira viva na Igreja que os escritores inspirados definiram da Palavra de Deus nos textos. A tradição transmitiu o espírito da família apostólica para interpretar autenticamente a Palavra de Deus contida nos textos inspirados, normativos; este «espírito de família», é o Espírito Santo recebido pelo Espírito Santo na interpretação da Palavra de Deus.

Tomemos um exemplo. A última ceia, celebrada por Cristo na noite de quinta-feira santa, foi repetida pelos apóstolos, e a sua repetição, bem como as palavras que a acompanham, foram transmitidas de uma forma viva pela tradição apostólica primitiva. Posteriormente apareceram os textos de Mateus, Marcos, Lucas e Paulo, que narram os gestos e as palavras essenciais de Cristo. Estes textos inspirados são normativos para qualquer celebração autêntica e para a compreensão da eucaristia. O estudo cientifico dos textos, das palavras dos ritos da refeição pascal onde Jesus se inspirou, podem trazer uma compreensão mais profunda do que Cristo quis fazer e do que a Igreja deve fazer depois dele. No entanto, a Igreja primitiva não se limitou aos textos sagrados para a celebração da eucaristia. Ela viveu este sacramento num conjunto de orações, cânticos, gestos, atitudes que não nos são contadas pelos textos inspirados. Ela tinha uma tradição da eucaristia que dava a estes textos o seu enquadramento vivo na prática da Igreja. Esta tradição evoluiu, enriqueceu-se e resultou, nos séculos quarto e quinto, nas grandes famílias litúrgicas, nas quais nós vivemos hoje a eucaristia. Se quiséssemos manter a celebração da última ceia com apenas os textos do Novo Testamento, nós teríamos uma liturgia muito pobre e distante do espírito da família eclesial, que nunca deixou de viver a celebração da eucaristia na tradição que remonta aos apóstolos. Também é verdade que houve adições e deformações infelizes, quando a Igreja perdeu o espírito litúrgico autêntico; mas por isso mesmo, estes textos sagrados, bem estudados, podem ter o seu papel de autoridade normativa, de modo que o retorno às fontes antigas, litúrgicas e patrísticas nos possam fazer encontrar uma tradição, uma vida autêntica da eucaristia na Igreja. A Igreja de hoje, ao estudar os textos do Novo testamento que narram os gestos e as palavras de Cristo, capta o sentido da última ceia, mas também ao celebrar a eucaristia segundo a grande tradição litúrgica que lhe comunica o espírito da família cristã, a compreensão vital do mistério dirigido pelo Espírito que nela vive.

A tradição é, portanto, o caminho e a transmissão da Palavra de Deus na Igreja; Não é indiferente saber como é que o Espírito Santo conduziu a Igreja através dos séculos na obediência à Palavra de Deus. Isso pode evitar à Igreja quer desvios inúteis quer exaustivos recomeços.

Este caminho e esta transmissão da Palavra de Deus na Igreja deixa traços. Nós já o vimos pela tradição litúrgica da eucaristia. Há também traços dogmáticos que são os símbolos da fé e as decisões dos concílios ecuménicos. Sem ter a autoridade absoluta do texto inspirado da Escritura, os símbolos e os textos conciliares têm uma autoridade normativa, porque eles exprimem como a Igreja universal, assistida pelo Espírito Santo, entendeu a Palavra de Deus e a transmitiu às gerações futuras.

Os dois grandes símbolos da fé, o símbolo dos Apóstolos e o símbolo de Niceia-Constantinopla, bem como os dogmas sobre a Trindade e sobre Cristo em Niceia (em 325), em Constantinopla (em 431), em Éfeso (em 431) e em Calcedónia (em 451), foram reconhecidos como normativos para todas as grandes Igrejas cristãs. É verdade que, um novo concílio ecuménico poderá retomar uma outra afirmação, para a completar ou aprofundar (é o que distingue um texto tradicional de um texto bíblico imutável), mas, até um novo concilio, toda a Igreja tem de guardar fielmente esta tradição conciliar, expressão da Palavra de Deus na vida da Igreja.

Vimos que a Escritura, revelação da Palavra de Deus à Igreja, e a tradição, caminho e transmissão dessa Palavra na Igreja, estão estreitamente ligadas. Vamos explicar agora como é que a Escritura é entendida pela e na Igreja, em vista à transmissão fiel do bom depósito apostólico. Esta compreensão da Escritura pela Igreja é uma compreensão universal, orante e missionária.

A Igreja é universal no espaço e no tempo. A igreja, na sua tradição, procura explicar a Palavra de Deus de modo a incluir a compreensão de todas as Igrejas locais da terra; é a razão da Igreja se reunir em concílios ecuménicos. A Igreja, na sua tradição, procura também explicar a Palavra de Deus na continuidade com as gerações cristãs do passado; é a razão do seu regresso às fontes litúrgicas e patrísticas, do seu estudo do desenvolvimento teológico ao longo dos séculos.

A Igreja entende a Palavra de Deus na sua liturgia e transmite-a pela sua tradição litúrgica. É a forma orante da compreensão e da tradição da palavra de Deus pela Igreja. A sagrada Escritura constitui a grande parte da linguagem da Igreja na sua liturgia. Deus fala-lhe na Escritura; e pelas palavras da Escritura, pelos salmos, pelas orações tecidas com vocabulário bíblico, ela responde a Deus, em louvor e súplica. Na celebração dos sacramentos ele vive concretamente da Palavra de Deus de onde ela se alimenta. Através deste uso abundante da Escritura na sua liturgia, a Igreja faz de alguma maneira a experiência viva da Palavra de Deus, e essa experiência é uma forma essencial da tradição. A Igreja não pode compreender melhor a verdade revelada na Escritura do que colocando-se em oração para adorar a Deus e interceder em favor de todos os homens. A liturgia é, então o lugar privilegiado onde a Igreja encontra a verdade, onde ela habita: a liturgia é uma forma essencial da tradição fiel da Palavra de Deus.

Finalmente a Igreja entende a palavra de Deus e transmite-a estando atenta ao mundo onde ela deve proclamar a salvação. É a forma missionária da compreensão e da tradição da Palavra de Deus pela Igreja. Cristo reina sobre o mundo e prepara misteriosamente os homens o encontrarem. A Igreja não deve conhecer somente a revelação, mas estar atenta aos sinais dessa preparação dos homens pelo Senhor do mundo. O diálogo da Igreja com o mundo pode ser uma forma da tradição. Este diálogo alarga a Igreja as suas dimensões católicas. Para que haja uma verdadeira tradição do Evangelho, para que a palavra de Deus viva penetre verdadeiramente a actualidade dos homens e do mundo, é necessário que a Igreja esteja profundamente presente junto dos homens e do mundo. Ela deve compreendê-los tais como são, vivendo no meio deles. Ela deve sobretudo penetrar nos valores e na linguagem do seu tempo. Pela linguagem é necessário entender todos os meios de expressão: não somente a língua. mas as imagens, os sinais, a literatura, o romance, o cinema, o teatro…

Todas as novas técnicas devem ser consideradas pela Igreja como valores, com optimismo e reconhecimento. A Igreja é por vezes pessimista e puritana em relação ao mundo. Se é verdade que ela deve condenar e rejeitar o pecado sob todas as suas formas, a guerra, a injustiça, o espírito de possessão e de orgulho, utilizados como valores deste mundo, ela deve ser positiva e cheia de esperança diante desses mesmos valores, que ela pode considerar como aberturas à santificação do Evangelho.

O diálogo da Igreja, presente no mundo e a todos os seus valores, com o homem contemporâneo, ela deve entender e falar essa linguagem, vendo-os como ocasião magnífica onde o Evangelho encontra uma nova maneira de se exprimir e revela assim a sua catolicidade e a sua eficácia. O mundo, e tudo aquilo que o Senhor mantém e desenvolve de valores autênticos, participa assim da fiel tradição do Evangelho, que em cada tempo revela a riqueza dos seus tesouros.

 

(fr. Max, de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op)

 

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