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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Dei Verbum

O Concílio Vaticano II analisado pelo Cardeal Poupard

Capítulo II. As fontes da fé

Promulgada pelo papa Paulo VI a 18 de novembro de 1965, a constituição dogmática «de divina revelatione», chamada Dei Verbum, as duas primeiras palavras deste texto, foi o fruto de uma longa e difícil elaboração.

É, na verdade, a quinta redacção de um esquema proposto à primeira sessão com o título «As fontes da revelação», que implicava a partir da declaração, de uma dualidade entre a Escritura e a Tradição. Depois de uma discussão animada, 1368 votos rejeitaram este projeto, e 822 votos aceitaram-na. Esta votação de segunda-feira, 19 de Novembro de 1962 colocava o concílio numa grande dificuldade, porque era necessária uma maioria de dois terços, que não tinha. A emoção foi grande na aula conciliar e as intrigas romanas foram grandes nessa tarde, mas não duraram muito porque, no dia seguinte, João XXIII, usando a sua autoridade, retirou o esquema da discussão e confiou-o para revisão uma equipa especial composta por membros da comissão doutrinal e do secretariado para a unidade dos cristãos, à qual juntaram alguns cardeais. O caminho foi longo e a sua elaboração lenta, num processo de maturação de pontos de vista notoriamente divergentes, entre partidários das duas fontes e os que defendiam uma só. O segundo texto, muito breve, foi dado aos Padres a 22 de Abril de 1963, mas nem foi discutido. Uma terceira redacção foi submetida ao concílio de 20 de Setembro a 6 de Outubro. Uma frutuosa discussão permitiu uma nova redacção, a quarta, submetida a voto, de 20 de Setembro a 29 de Outubro de 1965. O texto definitivo, o quinto, foi votado por quase unanimidade, a 18 de Novembro de 1965, por 2344 votos, contra 6, e imediatamente promulgado. Este texto, o mais pequeno do concílio, não é o menos importante. Que interesse teriam as decisões conciliares se não estivessem fundadas sobre uma autoridade claramente definida, que é a da Palavra de Deus revelada aos homens?

 

I. A revelação evangélica e a sua preparação

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se e fazer conhecer o mistério da sua vontade. Por amor, Deus, que é invisível, dirige-se aos homens como a amigos, e fala-lhes para os convidar a entrar na comunhão com ele e viver nessa comunhão. Deus, que pelo seu Verbo, criou e conservou todas as coisas, mostrou aos homens no mundo criado um testemunho duradoiro de si mesmo. Mas, desde o princípio, manifestou-se também aos nossos primeiros pais. Depois da queda, prometeu-lhes uma redenção, renovou-lhes a coragem, fazendo-os esperar a salvação. Chamou Abraão para fazer dele um grande povo que educou através de Moisés e dos profetas, para preparar os homens para receberem o Salvador prometido, abrindo, assim, através dos séculos, o caminho para o Evangelho. Porque, depois de ter falado, muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, Deus, nestes dias que são os últimos, segundo a expressão do autor da epístola aos Hebreus, retomada pelo concílio, falou-nos pelo seu Filho, o Verbo eterno, enviado a completar a obra de salvação que o Pai lhe deu.

Tais são a natureza e o objecto da revelação, proclamação da salvação aos homens. O concílio apresentou a autêntica doutrina, na sequência do concílio de Trento e do primeiro concílio do Vaticano, para que, segundo a palavra de Santo Agostinho, «o mundo inteiro acredite ao escutar, espere ao acreditar, e ame ao esperar». O Concílio obedece, assim, às palavras de São João: “Nós vos anunciamos a vida eterna que estava junto do Pai e se manifestou a nós para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo”.

 

II. Cristo, plenitude da revelação

A história da salvação encontra a sua realização plena em Jesus Cristo, mensageiro do Pai, e igualmente Deus, sendo, por isso, realizada à luz do Espírito Santo que Ele enviou. Jesus Cristo, diz-nos o concílio, é Deus connosco, para que sejamos libertos das trevas do pecado e da morte, e ressuscitemos para a vida eterna. Pela sua presença, as suas palavras, as suas ações, os seus sinais, os seus milagres, mas, sobretudo, a sua morte e gloriosa ressurreição de entre os mortos e, finalmente, pelo envio do Espírito de verdade, Cristo dá à revelação o seu último cumprimento e confirma-a pelo testemunho divino. Ele deu-lhe também a sua forma definitiva que jamais passará. O homem é chamado a aderir com toda a sua inteligência e com toda a sua vontade, pela fé, que se orienta inteiramente a Deus. Para isso, o homem precisa da graça de Deus e da ajuda interior do Espírito Santo que abre o seu coração à Palavra de Deus e volta-se para Ele. Ao abrir os olhos da sua alma, Deus devolve-lhe a alegria profunda pela aceitação da verdade e da fé que lhe dá. Nestas formulações, o concílio tomou, voluntariamente, as expressões seculares do Concílio de Orange e do Vaticano I, para melhor provar a continuidade da fé da Igreja. É assim que o concílio reafirma a possibilidade do conhecimento seguro de Deus pela luz natural da razão humana; a revelação permite, no estado presente do género humano, que ele seja mais facilmente conhecido por todos, com uma inabalável certeza, sem nenhuma margem de erro. Mas a revelação revela-nos sobretudo os segredos de Deus, inacessíveis à nossa razão, o seu mistério trinitário, e o seu desígnio de salvação realizado em Cristo pela força do Espírito.

 

III. A transmissão da revelação

Vindo trazer a todos os homens a boa nova da salvação, Cristo, no qual qualquer revelação tem o seu cumprimento, deu aos apóstolos a missão de pregar a todos o Evangelho, como nos é dito no final de São Mateus: «Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos».

Esta ordem de Cristo, acrescenta o concílio, foi fielmente cumprida pelos apóstolos que, na sua pregação oral, transmitiram o que receberam da boca de Cristo, da sua intimidade com ele, das suas obras, e também o que aprenderam por acção do Espírito Santo. E, precisa o concílio, esta ordem foi fielmente executada pelos seus apóstolos e pelos seus homens apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, colocaram por escrito a mensagem da salvação.

Isto valeu para a primeira geração cristã, a Igreja das origens. Mas a morte dos apóstolos não interrompeu a transmissão da revelação divina. Para que o Evangelho fosse guardado intacto e vivo na Igreja, os apóstolos deixaram como sucessores os bispos, os quais o transmitiram pelo seu múnus próprio de ensinar, segundo a expressão de Santo Ireneu.

 

IV. A Tradição e a Escritura

Bem longe de se opor como duas diferentes fontes da revelação, esta tradição santa e a santa Escritura dos dois Testamentos são como o espelho no qual a Igreja, durante a sua peregrinação sobre a Terra, contempla Deus, de quem tudo recebeu, até que chegue ao seu termo: vê-lo face a face, tal como ele é. É a pregação apostólica que aparece de uma forma especial nos livros inspirados. Foi por isso que os apóstolos, ao transmitirem o que eles próprios receberam, pediram aos fiéis que guardassem essas tradições que ouviram pelas suas palavras ou pelas suas cartas e as transmitissem à sua volta. Esta tradição, vinda dos apóstolos não é uma matéria inerte, mas um corpo vivo que se desenvolve na Igreja sob a assistência do Espírito Santo.

A percepção dos fiéis cresce, com efeito, pela contemplação que os crentes fazem e guardam no seu coração, pela penetração profunda das realidades espirituais que experimentam, pela proclamação que fazem aqueles que, pela sucessão episcopal, receberam um carisma garantido pela verdade.

Tradição e Escritura têm estreitas ligações entre si. Provenientes da mesma fonte, juntam-se, podemos dizer, numa só corrente, e tendem para o mesmo fim. Porque a Escritura é a palavra de Deus, posta por escrito sob a inspiração do Espírito divino. Quanto à Tradição, a palavra de Deus, confiada por Cristo aos apóstolos, através do Espírito Santo, esta é transmitida, integralmente, aos sucessores dos apóstolos para que, sob a luz resplandecente do Espírito de verdade, a guardem fielmente, a expliquem e a difundam. Assim, ambas devem ser recebidas com um igual respeito.

 

V. A Igreja e o magistério

Tradição e Escritura constituem, portanto, o único depósito sagrado da palavra de Deus confiada à Igreja, que guarda e professa a fé recebida, numa harmonia admirável dos bispos e dos fiéis. Mas a missão de interpretar autenticamente a palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi confiada unicamente ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. O magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando somente o que foi transmitido. É, portanto, evidente, conclui o concílio, que Tradição, Escritura e magistério da Igreja estão ligadas entre si, segundo o sábio desígnio de Deus, ligadas e associadas de tal modo que nenhuma delas tem consistência sem as outras, e que todas contribuem ao mesmo tempo, de modo eficaz, para a salvação das almas, cada uma, à sua maneira, sob a acção do Espírito Santo. Quer isto dizer que a Igreja não apoia apenas na Escritura a certeza do seu ensinamento, como demonstra a história dos dogmas, particularmente pelos inquéritos feitos pelo papa junto dos bispos para a definição da Imaculada Conceição e Assunção da Virgem Maria. A Escritura não cobre toda a Tradição, a qual não deve ser considerada como um suplemento quantitativo da Escritura.

 

VI. A inspiração da sagrada Escritura e a sua interpretação

Todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, compostos sob a inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor. Os homens que foram escolhidos utilizaram todos os seus meios, de modo a que, pela própria acção do Espírito neles e por eles, eles transmitiram por escrito, como verdadeiros autores, tudo o que Deus quis e só o que quis. A inspiração da Escritura leva à sua inerrância. Se é o Espírito Santo que diz o que eles dizem, então eles transmitem fielmente e sem erro a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis que essa verdade fosse registada nas sagradas escrituras.

Mas, porque Deus fala na Escritura por intermediários humanos, à maneira dos homens, é necessário então, para as bem entender, procurar com cuidado qual foi realmente a sua intenção ao procurarem fazer-nos compreender o que Deus quis dar-nos a conhecer pela sua palavra.

É, portanto, necessário, estar atento aos géneros literários usados, onde a verdade é proposta de maneira bem diferente, sejam textos históricos, ou proféticos ou poéticos. Os exegetas devem, então, trabalhar de acordo com estas regras e, em última análise, submeter a sua interpretação ao julgamento da Igreja, que se vale da ordem e do ministério divino para guardar e interpretar a palavra de Deus. Isto demonstra, com a verdade e a santidade de Deus, o seu amor para com o homem, que Ele quis salvar ao ponto de enviar o seu próprio Filho, o Verbo do Pai eterno, que se fez semelhante aos homens para os salvar.

VII. O Antigo Testamento

Pergunta-se, às vezes, qual é o interesse que pode ter hoje em dia o Antigo Testamento para os cristãos, tendo eles possuído a plenitude da nova aliança. É, na verdade, desconhecer a história da salvação. O Antigo Testamento ajuda-nos a compreender a pedagogia de Deus, o seu amor e a sua paciência para com o seu povo, a maneira admirável com que preparou os caminhos do reino messiânico profeticamente anunciado, a ponto de tornar-se indispensável para compreender a vinda de Cristo Redentor. Alguns livros são testemunho de um passado imperfeito, mas realçam sempre uma parte desta verdade que resplandece no Verbo. Exprimem uma dimensão viva de Deus, uma sabedoria de vida sempre vantajosa, e de magníficos tesouros de orações. Segundo as palavras de Santo Agostinho, citadas pelo concílio, o Novo Testamento estava escondido no Antigo e o Antigo ilumina-se no Novo que se enraíza no seu solo. Os Padres da Igreja compreenderam isto admiravelmente, usando as imagens, os acontecimentos e os símbolos do Antigo para melhor fazer compreender toda a significação trazida pelo Novo.

 

VIII. O Novo Testamento

O Novo Testamento trouxe-nos a plenitude da salvação que o Antigo tinha anunciado e prefigurado. Cristo instaurou o reino de Deus pelas suas palavras e pelas suas acções. Ele revelou o seu Pai e revelou-se a si próprio. Pela sua morte, ressurreição e ascensão, pelo envio do Espírito Santo, ele realizou a sua obra. Os escritos do Novo Testamento são um testemunho divino e perpétuo. Os quatro evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João, têm uma origem apostólica. Eles transmitiram-nos fielmente o que Jesus, o filho de Deus, enquanto viveu com os homens, fez realmente e ensinou em vista da sua salvação eterna. As cartas de São Paulo e os outros escritos do Novo Testamento completam os evangelhos, mostrando a doutrina de Cristo, os princípios da Igreja e a sua surpreendente difusão, ao mesmo tempo que a sua consumação gloriosa é antecipadamente anunciada. Como prometeu, o Senhor Jesus esteve com os seus apóstolos, e enviou-lhes o Espírito Santo, para os introduzir na plenitude da verdade que é a boa nova da salvação.

 

IX. – A Escritura na vida da Igreja

A Igreja sempre teve um grande respeito pelas Escrituras, como pelo próprio corpo do Senhor. É a palavra de Deus, a regra da fé, viva e eficaz. Por isso, é necessário fazer tudo para que ela esteja mais acessível aos fiéis, através de versões apropriadas, como foi antigamente a Septuaginta grega para o Antigo Testamento e Vulgata latina. Para isso, é importante usar também os escritos do Padres apostólicos, que tanto perscrutaram através das Escrituras. Os teólogos devem seguir os seus passos. O estudo das sagradas Escrituras, insiste o Concílio, deve ser como que a alma da teologia, da pregação pastoral, da catequese e de toda a instrução cristã, onde a homilia ocupa um lugar privilegiado.

O desejo do concílio foi largamente entendido, no que diz respeito à multiplicação das edições adaptadas a todos os públicos, e realizou tentativas importantes de tradução e de anotação feitas em comum com os nossos irmãos separados, como a TOB, tradução ecuménica da Bíblia. Mas ainda há muito a fazer para que a Bíblia seja realmente a alma da teologia e da catequese quotidiana, bem como a homilia dominical. Para isso, é importante que todos, catequistas, diáconos e padres, encontrem a antiga tradição da lectio divina, estudo este que é, simultaneamente, uma meditação na oração. Porque não se pode dar aos outros a palavra de Deus se ela não encher o coração. São Jerónimo dizia que ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo. É para ele que aponta e converge o Antigo Testamento. É dele que procede a Tradição viva da Igreja.

 

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