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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Introdução

O Concílio Vaticano II analisado pelo Cardeal Poupard

 

Introdução

 

Foi diante dos cardeais reunidos em São Paulo extra muros que João XXIII fez o anúncio de um concílio ecuménico, a 25 de janeiro de 1959. Depois de três meses de pontificado, o novo papa, diante da situação da Igreja e do mundo, anunciava a convocação de um sínodo diocesano para a cidade de Roma, e um concílio ecuménico para a Igreja universal. O texto distribuído em simultâneo na sala de imprensa do Vaticano precisava: «No pensamento do Santo Padre, o concílio não é só, por princípio, para o bem-estar espiritual do povo cristão, mas quer ser igualmente um convite às comunidades separadas para a procura da unidade à qual tantas almas aspiram hoje sobre toda a terra». Os meses seguintes foram de uma intensa actividade, não só em Roma, mas também em todo o mundo e, em Roma, onde o velho papa parecia correr, não cessando de falar e de agir. Não temos noção das muitas intervenções diante dos auditórios de todos os géneros, para os preparar para a ideia, tão nova para os seus interlocutores, de um concílio. Aos mais novos, o Papa explicou que «o concílio não é uma assembleia especulativa, mas um organismo vivo e vibrante, que vê e abraça o mundo inteiro; uma casa arranjada para uma festa, e resplandecente na sua elegância primaveril: É a Igreja que chama a si todos os homens ». Aos arquitectos diz que «o concílio fará elevar ao céu um canto primaveril de juventude e quer construir um edifício novo sobre os fundamentos colocados ao longo da história». A um coro de Colónia, compara o concílio a «uma poderosa sinfonia». Aos estudantes, pede que sejam «decididamente optimistas e pacíficos, sempre disponíveis para os grandes desígnios da Providência. É isso, e não outra coisa, que a Igreja quer fazer com o seu concílio». Porque, dizia ele aos funcionários da Igreja, «o concílio suscita no mundo inteiro uma intensa esperança»: é, ao mesmo tempo. «a flor espontânea de uma primavera inesperada» e «um novo Pentecostes».

A 5 de Junho de 1960, instituiu as comissões, com os mesmos nomes das congregações romanas que existiam, acrescentando a do apostolado dos leigos. Simultaneamente, manda perguntar, através do seu secretário de Estado, o cardeal Tardini, a todos os bispos e às universidades católicas, que lhe indiquem, com toda a liberdade e sem nenhuma restrição, os temas que, segundo eles, deveriam entrar no concílio. Isto foi uma agitação extraordinária, as respostas começaram a chegar, as quais ainda podem ser consultadas na impressionante série das Actas Preparatórias do concílio. Concomitantemente, desenvolvia-se uma imensa e incomum literatura pré-conciliar, desde os grossos livros de especialistas aos brilhantes ensaios dos escritores e às improvisações dos jornalistas. A lista é inumerável e testemunha, por si própria, as intenções mais contraditórias trazidas por este anúncio, também ele imprevisto, depois do concílio Vaticano I (1870) que tinha definido a infalibilidade papal.

Outros fizeram uma preparação mais precisa que permitia clarificar um certo número de pontos obscuros e pôr em dia uma data de sugestões pouco compatíveis. Mas o velho pontífice, apressando-se a agir, respondia, com humor, que «em matéria de concílio, somos todos noviços, e que era urgente colocar-se à escuta do Espírito Santo». As reuniões das comissões ante preparatórias e, depois, preparatórias, apesar de bem conduzidas, resultaram em inumeráveis textos: 70 – levados rapidamente a uma comissão central preparatória que os começava a discutir, mas rapidamente ultrapassada pelo calendário. A 25 de Dezembro de 1961, dia de Natal, o Papa João XXIII, pela constituição Humanae Salutis, convocava o concílio ecuménico, que entraria na história como a assembleia conciliar mais importante alguma vez realizada na Igreja, de 11 de Outubro de 1962 a 8 de Dezembro de 1965.

Um concílio à escala da Igreja e do mundo

De facto, a consulta aos pastores tinha resultado em mais de 2000 respostas, em contra ponto com as 224 do Vaticano I. Este concílio tinha reunido 744 Padres, dos quais 200 eram bispos italianos, sem um bispo negro sequer. O Vaticano II reuniu 2860 Padres vindos de 141 países, e mais de uma centena do continente africano. Pela primeira vez na história, todas as nações da terra e todas as tradições da Igreja podiam fazer-se ouvir, com a ajuda de 453 peritos, na presença de 58 auditores, auditoras e leigos convidados, e de 101 observadores não católicos, ao longo das 4 sessões, onde se fizeram 168 congregações gerais, durante o Outono de 1962, 1963, 1964 e 1965, sob a presidência sucessiva dos dois papas, João XXIII para a primeira sessão e Paulo VI para as outras.

Foram abordadas muitas matérias, mais de 100 000 palavras, 16 documentos foram aprovados, ou seja, 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações. As primeiras têm um valor permanente, as segundas, uma aplicação prática imediata, e as terceiras marcam uma etapa numa tomada de consciência. Uma constituição consagrada à revelação tem muito maior alcance que um decreto sobre a formação dos padres ou uma declaração sobre os meios de comunicação social.

É sobre este conjunto que me vou esforçar, com estes anos de distância, para dar uma visão precisa e possível do concílio.

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