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Dominicanos

Apostolicam actuositatem

O Concílio Vaticano II analisado pelo Cardeal Poupard

Haver um texto sobre o apostolado dos leigos de entre os sete decretos conciliares, escreveu René Rémond, é, por si, só um acontecimento. Com a presença de observadores leigos nos trabalhos do concílio, esta marca uma etapa decisiva no desenvolvimento da ideia de que a Igreja se constrói com ela própria. É o primeiro texto sobre este tema que um concílio ecuménico votou. Este decreto está inseparavelmente ligado à reflexão conjunta do Vaticano II sobre a Igreja e o seu mistério. Este texto, em gestação durante o Outono de 1962, primeiramente reduzido a 18 páginas e, depois, a 14, foi discutido em Outubro de 1964, profundamente retocado nas sessões intercalares; foi, finalmente, aprovado a 18 de 1965, com 2340 placet e 2 non placet. O texto lembra que todos os leigos são chamados a participar na missão da Igreja, no seu modo próprio, que deriva da especificidade do seu estado: o estado próprio dos leigos é de estar no meio do mundo e dos afazeres profanos, onde são chamados por Deus a exercer o seu apostolado no mundo como o fermento, graças ao vigor do seu espírito cristão.

 

VI. Apostolado e evangelização

 

O anúncio do Evangelho não é tarefa exclusiva do papa, dos bispos, dos padres, dos religiosos e das religiosas. Qualquer vocação cristã é apostólica. A Igreja tem por missão levar todos os homens a participar na redenção. Os leigos participam na função sacerdotal, profética e real de Cristo e, portanto, na missão evangelizadora da Igreja, espalhando o Reino de Cristo a toda a terra, para glória de Deus Pai. O princípio essencial colocado pelo concílio é que a vocação cristã é, pela sua natureza, vocação ao apostolado, sendo que qualquer actividade do corpo místico conduz à participação de todos os homens na redenção e na salvação. É desta união com Cristo Cabeça que os leigos têm o dever e o direito de serem apóstolos, na fé, esperança e caridade que o Espírito Santo coloca nos corações de todos os membros da Igreja. A fecundidade do seu apostolado depende, então, da sua união vital com Cristo, de acordo com a sua palavra: «Aquele que permanece em mim, e eu nele, dará muito fruto. Porque sem mim nada podeis fazer». A sua espiritualidade reveste-se das características particulares segundo as suas condições de vida conjugal e familiar, celibato ou viuvez, doença, actividade profissional e social.

 

VII. Renovação cristã da ordem temporal

Para a Igreja, longe das visões pessimistas e maniqueístas, o mundo tem um valor próprio, tem uma real autonomia e os leigos actuam sob a sua responsabilidade, acolhendo todos os homens conforme o desejo de Deus: a vida e a família, cultura, realidades económicas, ocupações e trabalho, instituições da comunidade política, relações internacionais. Porque este mundo, criado bom por Deus desde as origens, foi corrompido pelo pecado, considerando as coisas temporais como ídolos e tornando os homens mais escravos que senhores. Também a Igreja deve ajudar os homens a construir a ordem temporal, orientando-os para Deus, por Jesus Cristo. E os leigos devem assumir como sua a tarefa da renovação da ordem temporal. O concílio lembra que, se todo o apostolado encontra na caridade a sua origem e a sua força, a acção caritativa e o exercício da misericórdia são o sinal do apostolado cristão.

 

VIII. Os diversos campos do apostolado

Não há nada que esteja excluído do apostolado dos leigos. O seu campo é a Igreja e o mundo: as comunidades eclesiais, a família, os jovens, o meio social, os sectores nacional e internacional. De entre todos, a paróquia oferece um exemplo notável do apostolado comunitário, porque esta reúne na unidade todas as diversidades humanas, a qual se insere na universalidade da Igreja. A família, célula primeira e vital da sociedade, é como um santuário da Igreja doméstica, e um transmissor da sua caridade universal: adoptar crianças abandonadas, acolher os estrangeiros, ajudar no bom funcionamento das escolas, aconselhar e ajudar os adolescentes, ajudar os noivos a melhor se prepararem para o casamento, ajudar na catequese, apoiar os esposos e as famílias nas suas dificuldades materiais ou morais, ajudar os idosos, não só no indispensável, mas também na justiça e equidade do progresso económico, constituem funções vitais do agregado familiar. As crianças e os jovens necessitam de serem progressivamente preparados para as suas responsabilidades. São eles que devem ser os primeiros apóstolos dos jovens, no contacto directo com eles, exercendo o apostolado por sua iniciativa e entre eles, tendo em conta o meio social onde vivem. Porque o apostolado no meio social ajuda a fazer entrar o espírito cristão na mentalidade e nos costumes, nas leis e nas estruturas da comunidade onde cada um vive. Este é, realmente, o trabalho próprio e a missão dos leigos, que ninguém pode assumir em seu lugar. Este apostolado entre iguais une o testemunho da palavra ao da vida, e dirige-se a todos os homens, nos planos nacional e internacional, onde os leigos são, de modo especial, os administradores da sabedoria cristã, em colaboração com todos os homens de boa vontade, para promoverem tudo aquilo que é verdadeiro, justo, santo, digno de ser amado.

 

IX. Os diversos modos de apostolado

O apostolado pessoal, que resulta sempre de uma vida verdadeiramente cristã, é o princípio e a condição de qualquer apostolado dos leigos, mesmo em conjunto, e é imprescindível. É particularmente necessário e urgente nas regiões onde a liberdade da Igreja está gravemente comprometida. E assume grande importância sobretudo onde os leigos são poucos e estão dispersos.

Mas o homem é, por natureza, social. E o apostolado organizado corresponde bem à condição humana e cristã dos fiéis, em que tudo é sinal de comunhão e de unidade, de acordo com o que Cristo disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”. É particularmente importante que este apostolado chegue às mentalidades colectivas e às condições sociais, tendo a força para resistir à pressão da opinião pública ou das instituições.

Existe uma grande variedade nas associações de apostolado. A este propósito, o concílio lembra que a liberdade dos leigos deve estar assegurada com a ligação necessária à autoridade eclesiástica. E pede que se evite a dispersão de forças. Recomenda, finalmente, a acção católica, frequentemente nomeada, segundo os seus próprios métodos, como uma colaboração dos leigos com o apostolado hierárquico.

 

X. Disposições concretas

O apostolado dos leigos, individual ou colectivo, deve inserir-se verdadeiramente no apostolado de toda a Igreja, em estreita ligação com aqueles que o Espírito Santo constituiu seus pastores, segundo a diversidade dos meios e dos objectivos. De qualquer forma, nenhuma iniciativa pode ser considerada católica sem o consentimento da legítima autoridade eclesiástica. E os bispos, os párocos e os outros padres do clero secular ou regular, devem lembrar-se de que o direito e o dever de exercer o apostolado é comum a todos os fiéis, clérigos ou leigos. Podem ajudar-se mutuamente num trabalho de cooperação no plano paroquial, inter-paroquial, diocesano, inter-diocesano, ou até nacional e internacional.

O concílio recomenda constituir na Santa Sé um secretariado especial para o serviço e apostolado dos leigos, com a participação dos diversos movimentos e organizações apostólicas de leigos do mundo inteiro. Criado ad experimentum a 6 de Janeiro de 1967, o pontifício conselho para os leigos recebeu a sua estrutura definitiva pelo Motu Proprio «Apostolatus Peragendi», de 10 de Dezembro de 1976. Quase todos os seus membros são leigos, homens e mulheres, de diversos continentes e formas de apostolado.

O documento conciliar pede, finalmente, uma formação adaptada que prepare os leigos para o apostolado, no plano humano, doutrinal e espiritual, para os preparar para dar um testemunho de vida verdadeiramente evangélica diante de qualquer forma de materialismo. É o papel dos pais, educadores, padres e instituições. Serão ajudados pelas sessões, congressos, recolecções, exercícios espirituais, conferências, livros e comentários da sagrada Escritura e da doutrina católica.

 

XI. Os padres e as associações de fiéis

O concílio, tendo tornado mais clara a missão comum dos leigos, que são, ao mesmo tempo, sinal de salvação no mundo e charneira entre este mundo e a Igreja, achou também necessário precisar a identidade e a missão dos padres no seio das associações de fiéis. Esta foi objecto de um documento do conselho pontifício para os leigos, promulgado a 4 de Agosto de 1981. Llembra que entre o povo de Deus, Cristo instituiu ministérios, dotados de poderes específicos ao seu serviço. Também o assistente eclesiástico é nomeado para as associações de leigos pelos ministros responsáveis da Igreja, ou seja, o bispo na sua diocese, a conferência episcopal para o país, e a Santa Sé para uma associação internacional por ela reconhecida.

O papel específico do presbítero é ser pai e pastor dos seus irmãos, com uma responsabilidade insubstituível, exercida em nome de Cristo, pastor de todo o povo de Deus. Ele deve ser sobretudo construtor de unidade, educador da fé pelo anúncio da palavra de Deus e pela celebração sacramental, verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo, animador espiritual e testemunha de Deus vivo. O secularismo do mundo actual necessita de ter preenchida esta missão profética. É realizando esta missão que o padre suscitará, no maior número possível de leigos, o entusiasmo por esta missão: participar na salvação de todos os homens em Jesus Cristo.

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