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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 15. A libertação



 

 

Ao viver totalmente com os homens, Cristo manifestou o seu amor, mas essa manifestação realizou-se de modo único no sacrifício que ele fez de si próprio morrendo na cruz.

A redenção da humanidade por Cristo, é o acto pelo qual ele arranca os homens dos poderes do mal; este acto, é toda a sua vida terrestre, mas muito particularmente a sua morte na cruz. , mas muito particularmente a sua morte na cruz. Redenção quer dizer resgate. A imagem que esta palavra significa é a de que o homem foi como que vendido ao pecado, ao egoísmo, ao orgulho, à cobiça. Cristo veio para o resgatar, para o arrancar dos poderes do mal, e o preço que ele pagou por esse resgate, é o sacrifício da cruz. Para dar ao homem a possibilidade de se escapar, de se libertar destas forças fatais que o afastam de Deus, era necessário que Cristo cumprisse até ao fim a sua comunhão com o homem: ele partilhou tudo connosco, menos o pecado. Com efeito, era necessário que fosse totalmente homem como nós, para nos mostrar como é ser verdadeiramente homem; mas era preciso que ele fosse homem sem pecado, porque o pecado desfigura a nossa natureza humana, e, se ele tivesse conhecido o pecado, não nos poderia ajudar a sair.

Esta redenção, este resgate, este arrancar do homem dos poderes do mal cumpre-se então numa completa substituição de Cristo com a nossa natureza humana. Nós não poderíamos sair por nós próprios; todos os nossos esforços, mesmo guiados pela lei moral e religiosa, ficariam rapidamente esgotados, porque os poderes do mal retinham a nossa vontade. Era impossível ao homem salvar-se, mesmo procurando obedecer a Deus. O homem, por causa da sua fraqueza, não poderia aproximar-se de Deus porque o pecado o tinha afastado. Porque o homem não poderia sequer tentar um passo de aproximação para Deus sem que depressa ele recuasse e tornasse a cair, Deus decidiu descer até ao profundo da sua miséria. Cristo tomou totalmente o lugar do homem para lhe pegar pela mão e caminhar com ele pelo caminho que leva a Deus. Toda a nossa salvação consiste nesta total substituição de Cristo; ele ocupou verdadeiramente o nosso lugar.

Por muito baixo que nós desçamos na aflição e no sofrimento humano, nós encontramos Cristo ao nosso lado para nos tirar das garras do desespero. O movimento mas pequeno de boa vontade para começar a acreditar em Deus e a obedecer-lhe, é Deus que o realiza em nós. Porque ele se identificou totalmente connosco, nós podemos dizer sem cessar, em qualquer momento de aflição ou de esperança: Cristo é a minha vida, já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.

Ele substituiu então o homem até à morte, até à morte de cruz. E, nessa morte, a mais terrível, a de um malfeitor condenado e abandonado, ele cumpriu a expiação do nosso pecado. Esta expiação deve ser realizada também no sentido da substituição de Cristo na nossa humanidade pecadora e no sentido da comunhão de Cristo com toda a nossa miséria humana.

Por cauda do nosso afastamento de Deus da nossa revolta contra ele, da nossa recusa em seguir as suas palavras de vida, nós merecemos a condenação, o esquecimento de Deus. Mas Deus é amor; não quis tirar proveito da nossa ingratidão e do nosso pecado. Ele próprio veio na pessoa do Filho, em Jesus Cristo, para nos libertar do cerco da nossa revolta contra a sua vontade. E Cristo morreu sobre a cruz, como um condenado, ele o justo. Contemplando o Crucificado, nós medimos a gravidade da nossa falta que mereceu semelhante castigo. E contudo Deus poupou-nos esta condenação e este castigo. É necessário, no entanto, saber o resultado normal da nossa vida de pecado e, portanto, ele revelou-nos na pessoa de Cristo crucificado, tornado condenado em nosso lugar, ele sem pecado. Só ele é capaz de suportar este castigo, sem revolta e sem ódio contra Deus. Lá, ao pé da cruz, nós medimos a imensidão da nossa ingratidão para com Deus e somos levamos a nos prostrarmos num gesto de profundo arrependimento. Mas, ao mesmo tempo, porque é o amor do próprio Deus que se sacrifica, nós somos envolvidos na acção de graças e na adoração.

Nós adoramos o Crucificado que aceita morrer em nosso lugar para nos mostrar o nosso pecado; nós damos-lhe graças pela imensidade do seu amor que se sacrifica por nós até ao fim. E é neste mistério do sacrifício da cruz, que nos revela ao mesmo tempo o nosso pecado e o amor de Deus, que nós somos atraídos por Cristo e restabelecidos na comunhão perfeita com o Pai. Neste acto de amor de Cristo, totalmente sacrificado por nós, realiza-se a nossa salvação que é a redescoberta da nossa comunhão com Deus. Já ninguém poderá separar-nos deste amor de Deus manifestado em Jesus Cristo.

Esta redenção, esta substituição, esta expiação cumpre-se para todos os homens, os contemporâneos de Cristo, todos aqueles que irão nascer no futuro, e também todos aqueles que o precederam no tempo. O evangelho foi também anunciado aos mortos, porque Cristo desceu à mansão dos mortos. Esta breve indicação dos textos sagrados não nos permite falar muito sobre este mistério, mas é suficiente para nossa consolação.

Há um lugar onde todos os que nesta terra não tiveram oportunidade de encontrar Cristo podem fazer este encontro decisivo. Como imaginar esse lugar? Será mesmo possível? Basta-nos saber que, numa outra vida, todos os não-cristãos podem ter uma nova oportunidade de salvação em Cristo. Pela sua descida à mansão dos mortos, o Salvador manifestou essa promessa desconhecida; qualquer homem, nesta vida ou numa outra, pode decidir-se por Cristo ou contra ele. A salvação é verdadeiramente universal.

(fr. Max de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op)

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