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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 3. Onde encontrar a fé?



 

 

O lugar onde se encontra a verdade cristã é numa colecção de livros, um texto escrito, a sagrada Escritura, porque a verdade cristã é uma verdade histórica; ora, uma verdade histórica é atestada por documentos que relatam os acontecimentos e as interpretações desses acontecimentos.

A fé cristã não é uma religião fundada sobre mitos, explicações poéticas não-históricas dos mistérios no que dizem respeito à divindade e à humanidade. Ela não está fundada sobre os ritos, os cultos iniciáticos que conduzem ao conhecimento desses mistérios. Ela não foi fundada sobre uma filosofia, ao mesmo tempo de ideias metafísicas que explicam os mistérios de Deus e o destino dos homens. Ela não foi fundada sobre uma mística, programa de ascese contemplativa que vai submetendo, pouco a pouco, o homem à influência da divindade.

É claro que encontramos na fé cristã, por causa da sua humanidade, por causa da Palavra de Deus, que se exprime numa linguagem humana, o mito, o rito, a filosofia e a mística; mas estes elementos acessórios, estes instrumentos religiosos, não esgotam a significação original da fé cristã: ela é essencialmente e fundamentalmente uma relação entre o homem e Deus, em que a iniciativa vem só de Deus que falou e fala ao homem, que viveu e vive com o homem; ela está, então, formada sobre uma história, a história santa dos acontecimentos entre Deus e o homem, confirmada pelos documentos escritos, a sagrada Escritura.

Mas a fé cristã não é só uma religião do Livro santo, embora contenha toda a revelação de Deus na história. A fé cristã é uma vida de comunidade reunida à volta da palavra de Deus. Nós retomaremos mais à frente este aspecto comunitário da fé cristã. Nós começamos aqui por dizer que a sagrada Escritura que contém a Palavra de Deus pronunciadas na história para a felicidade do homem.

A sagrada Escritura tem uma primeira colecção de livros que revelam a Palavra de Deus proclamada até à vinda de Cristo: o Antigo Testamento. Esses textos que relatam a história do povo de Israel, povo escolhido por Deus para proclamar a sua Palavra, foram lidos por Cristo, durante a sua vida terrena. Ele leu-os como o depósito da própria Palavra de Deus, como revelação progressiva e velada de Deus aos homens, como o suporte da verdade que se vai descobrindo aos poucos aos homens distantes de Deus pelo pecado. A autoridade divina de Cristo credibiliza, portanto, para nós estes livros antigos e assegura-nos o seu carácter de revelação divina.

O cristão lê o Antigo Testamento, reza os salmos, como Cristo, certo como ele que aí se encontra a verdade sobre Deus e o homem, envolvidos nos textos da história de um povo, o povo de Deus, Israel.

Na verdade, todos os textos do Antigo Testamento não têm o mesmo género literário. Há livros históricos que são os documentos sobre os factos da história de Israel com uma interpretação religiosa desses factos. Há textos poéticos que cantam a glória de Deus e a esperança humana. Há mitos religiosos que fazem parte do tesouro comum de toda a humanidade e que explicam os grandes mistérios da criação, do pecado, das origens do mundo. Mas todos estes textos, sejam históricos, poéticos ou míticos, são uma linguagem de que Deus se serviu para falar aos homens. Mesmo quando os escritores inspirados tenham ido beber ao tesouro religioso, mítico e poético da humanidade, para explicar o mistério das origens do mundo, por exemplo (livro do Génesis), a Palavra de Deus passou pela sua composição literária para que fosse relevado o essencial da verdade sobre a criação, o pecado e a graça de Deus. É assim que estes textos, em que encontramos os temas até noutras religiões, têm uma intenção e uma finalidade diferentes, porque eles contêm a revelação de Deus, o Criador. A sua proclamação transmite a verdade sobre as origens do mundo. Não é necessário ficar agarrado à sua forma literária, mítica e poética, acreditando e encontrando os detalhes de um acontecimento histórico; é necessário ir à sua intenção profunda, à Palavra do próprio Deus que utilizou esses mitos religiosos humanos como linguagem para comunicar a verdade sobre as origens.

A segunda colecção de textos da santa Escritura, o Novo Testamento, é essencialmente um conjunto de testemunhos históricos sobre o acontecimento da incarnação de Deus em Jesus Cristo para a libertação da humanidade.

Os apóstolos escolhidos por Cristo, testemunhas oculares da sua vida, da sua morte e da sua ressurreição, ouvintes atentos do seu ensinamento e seus sucessores directos, escreveram evangelhos e cartas. Como colunas da Igreja, eles receberam de Cristo a promessa do dom do Espírito que os fez guardar na sua memória os gestos e as palavras do seu Mestre. Os escritores do Novo Testamento foram inspirados pelo Espírito Santo na sua relação com os acontecimentos da vida de Cristo e na interpretação que eles lhes deram. "O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse… o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa" (João 14, 26; 16, 13). A Igreja acreditou desde sempre nesta inspiração dos escritores do Novo Testamento; no entanto, ela não fixou logo no início a lista dos escritos inspirados, ela entendeu que a sua autoridade (da lista) era maior do que ela (Igreja) para poder decidir qual seria o seu número definitivo.

Para uma decisão infalível, a Igreja antiga reconheceu no Novo Testamento, tal como o temos hoje, a colecção dos livros inspirados que seriam a sua fonte do conhecimento de Cristo e a regra da sua fé. Ela não quis dizer que a Palavra de Deus não podia ultrapassar os seus limites; mas, na humildade do seu serviço à verdade, ela excluía que qualquer outro escrito sobre Cristo ou sobre a Igreja primitiva pudesse ter a autoridade absoluta da própria Palavra de Deus. A verdade impôs-se á Igreja, como Cristo aos Apóstolos, e, possuída pelo Espírito Santo, ela deu uma norma ao seu pensamento, a fim de continuar fiel a Cristo.

A Igreja, obrigada pelo Espírito Santo a reconhecer na Escritura a palavra de Deus normativa para a sua fé, acreditou desde sempre na inspiração dos escritos do Novo Testamento. A experiência da sua pregação, sempre renovada, sobre os textos sempre inesgotáveis, confirmou-a nesta certeza da inspiração bíblica.

Temos então a inspiração dos escritores do Novo Testamento, apóstolos ou sucessores dos apóstolos. Herdeiros da promessa de Cristo, já citada, eles receberam o Espírito Santo que lhes lembrou os feitos e as palavras de Cristo ou os dirigiu na escolha das suas fontes; eles receberam o Espírito Santo que os conduziu na verdade plena, enquanto interpretavam esses feitos e essas palavras de Cristo ou quando escreveram os primeiros tratados de teologia e de ética cristã.

Não se trata, portanto, só de uma inspiração de pessoas, mas também do seu acto de escrever. É assim que se pode falar de inspiração divina do texto da Escritura como da inspiração divina dos apóstolos ou dos sucessores dos apóstolos, escritores do Novo Testamento.

Esta inspiração dos autores e dos escritos sagrados não exclui a dimensão humana dessas pessoas e desses textos. É deste modo que a inspiração dos autores e dos seus escritos não compromete a inspiração da letra desses escritos. Não há uma inspiração literal, como se o Espírito Santo tivesse ditado os seus escritos aos autores sagrados. O Espírito Santo, agindo sobre a memória, o julgamento e a razão dos escritores sagrados, inspirou-lhes um texto em que o conteúdo é a Palavra de Deus e em que a forma literária procede da sua humanidade.

A inspiração divina do conteúdo, que é Palavra de Deus, não implica a inspiração palavra-a-palavra, do género literário, da sintaxe e da gramática, nem mesmo a exactidão absoluta da cronologia ou dos detalhes do relato. É mesmo uma das provas da historicidade de um relato que ele se apresente de uma forma diferente, com outros detalhes, nas diversas narrações como a dos quatro evangelistas. O espírito das testemunhas foi marcado de modo diferente pelo acontecimento que acabou em narrativas diversas, enquanto o Espírito Santo os inspirava no acto do seu testemunho escrito.

Há uma analogia entre o mistério de Cristo e o mistério da Escritura. Jesus Cristo é em duas naturezas verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na unidade da pessoa do Filho de Deus incarnado. A Escritura, analogicamente (porque o mistério de Cristo é único), é também de duas naturezas, texto verdadeiramente humano na sua forma e texto verdadeiramente inspirado no seu conteúdo, a Palavra de Deus que faz a unidade da forma humana e do conteúdo inspirado. Do mesmo modo que não podemos negar ou descurar a humanidade de Cristo para conhecer o Filho de Deus incarnado, na sua divindade, assim também não podemos negar ou descurar a forma humana da Escritura para encontrar a Palavra de Deus. É na humanidade de Cristo que se encontra a sua divindade de Filho de Deus incarnado; é na forma humana da Escritura que descobrimos o seu conteúdo divino: a Palavra de Deus, presente no texto inspirado, quando ele é lido e pregado.

O Novo Testamento compreende: os acontecimentos e as palavras históricas; as interpretações apostólicas desses acontecimentos e dessas palavras; e as composições teológicas sobre esses acontecimentos e essas palavras.

Os feitos e as palavras históricas da vida de Cristo chegam-nos dos testemunhos que devem ser recebidos na fé, mas sobre os quais se pode fazer a crítica histórica e literária. O objectivo dessa crítica é de nos ajudar a melhor percebermos a forma humana do testemunho apostólico, para que acedamos mais profundamente ao conteúdo inspirado desse testemunho, que é a Palavra do próprio Deus.

Os feitos e as palavras históricas da vida de Cristo receberam uma interpretação por parte dos apóstolos ou dos seus sucessores. Conduzidos pelo Espírito Santo na verdade, eles deram uma primeira e autêntica interpretação do que tinham visto e entendido. Essa interpretação apostólica é tão inspirada como o testemunho dos acontecimentos e palavras da vida de Cristo. Encontramo-la (a inspiração) nas Epistolas, mas também nos Evangelhos que nos contam os factos e as palavras históricas com uma primeira interpretação dos evangelistas. Aqui, a crítica pode ajudar-nos a apagar os feitos e as palavras da sua interpretação imediata pelos evangelistas ou dos testemunhos que eles usaram. Mas esse trabalho não deve conduzir-nos a esquecermos a interpretação apostólica sob benefício de uma pretensa verdade histórica pura. Enquanto a crítica muitas vezes fica sujeita a uma verificação posterior, a interpretação apostólica é tão inspirada como o testemunho histórico dos actos e das palavras a que se refere. A Palavra de Deus encontra-se tanto na interpretação apostólica como no testemunho histórico.

Os acontecimentos e as palavras históricas da vida de Cristo são finalmente a matéria das composições teológicas ditadas aos evangelistas pela experiência da vida da Igreja apostólica, por uma vontade de comparar a antiga e a nova Aliança, ou por qualquer outra razão pedagógica. Já mostrámos que os escritos do Evangelho de São João, enquanto acontecimentos e palavras históricas, foram distribuídas segundo um plano que mostra a vida sacramental da Igreja primitiva, a sua celebração do baptismo e da eucaristia. Mostrámos que os dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas narram a incarnação e a infância de Jesus evocando textos e imagens do Antigo Testamento… Nas suas composições teológicas, se os acontecimentos e as palavras históricas são respeitados, a sua sucessão não tem de ser exacta, porque importa mais ao autor seguir o esquema catequético do que manter uma ordem cronológica e certos pormenores acessórios. As palavras de Cristo podem estar também sujeitas a desenvolvimentos, resultado da pregação apostólica primitiva, que encontramos sobretudo em são João. Mas ainda assim a composição teológica é inspirada e transmite a Palavra de Deus; não podemos negá-la sob o pretexto de não ter os actos e as palavras autênticas.

Actos e palavras históricas, interpretações apostólicas e composições teológicas a propósito destes acontecimentos e palavras, interpenetram-se e constituem o texto inspirado da Escritura. Através de todo este texto, em que a crítica pode distinguir as camadas sem nunca as dever isolar uma da outra, a Palavra de Deus ressalta, fazendo unidade indissolúvel da humanidade e da inspiração da Escritura.

É assim que a sagrada Escritura é o lugar da verdade: ela é o canal infalível que, de Cristo, Palavra de Deus incarnada, fonte da Revelação, conduz a Igreja e ao cristão, iluminados pelo Espírito Santo, à verdade na sua plenitude original.

(fr. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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