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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Perfectae Caritatis

O Concílio Vaticano II analisado pelo Cardeal Poupard

I. A vida religiosa na Igreja

O decreto Perfectae Caritatis sobre a renovação adaptada da vida religiosa foi aprovado na sessão plenária de 11 de Outubro de 1965 por 2126 Padres sobre 2142 votantes. Preparado em 1962, um primeiro esquema de mais de cem páginas foi bastante reduzido em Novembro desse mesmo ano, a pedido do conselho de presidência do concílio, contendo os princípios gerais sobre os pontos essenciais. Estas 35 páginas, datadas de 22 de Abril de 1963, foram ainda rejeitadas pela comissão central, nas duas reuniões de 28 de Dezembro de 1963 e 15 de Janeiro de 1964, tendo sido decidido reduzir o documento ainda mais - a simples propostas - o que foi feito a 24 de Abril de 1964, para sete páginas! Este documento pareceu fraco aos Padres do concílio, tendo sido pedido que fosse aumentado, antes de ser modificado, a partir de mais de 14 000 correcções. Tal como está, este texto completa a contribuição doutrinal da constituição sobre a Igreja, que já apresentámos, bem como o decreto sobre a missão pastoral dos bispos, no que diz respeito ao envolvimento dos religiosos na vida apostólica da Igreja e, em particular, numa pastoral diocesana de conjunto.

 

II. A renovação adaptada da vida religiosa

A renovação adaptada da vida religiosa querida pelo concílio é, ao mesmo tempo, o regresso às fontes de toda a vida cristã, bem como à inspiração original dos institutos, e, por outra parte, a correspondência destes às novas condições de existência, segundo o impulso do Espírito Santo e a direcção da Igreja. A regra suprema é seguir Cristo de acordo com o ensinamento do Evangelho.

Por outro lado, o bem da Igreja pede que cada instituto tenha o seu carácter e função próprios, de acordo com o espírito dos fundadores, as suas intenções específicas, as santas tradições que constituem o seu património. Cada instituto deve então transmitir à Igreja a sua maneira própria de viver e entrar na sua renovação bíblica, dogmática, pastoral, ecuménica, missionária e social. Inseridos no mundo de hoje para contribuir para a sua salvação, os religiosos devem conhecer os seus traços particulares, para que o seu testemunho seja mais eficaz. O concílio lembra, finalmente, que as melhores adaptações às exigências do nosso tempo não produzirão efeito se não forem animadas por uma renovação espiritual.

 

III. Primado da vida espiritual

A vida espiritual está no coração da vida religiosa: sem ela, perde o sentido. É necessário, portanto, alimentá-la diariamente pela oração, pela leitura e pela meditação da sagrada Escritura, pela celebração da liturgia e, particularmente, da Eucaristia. Assim alimentados, os religiosos serão os filhos privilegiados da Igreja, com um amor profundo pelos seus irmãos, um respeito filial pelos seus pastores, e a vontade de viver e pensar sempre e mais na Igreja, consagrando-se totalmente à sua missão.

 

IV. Contemplação e apostolado

No seguimento do Evangelho, o concílio lembra que os contemplativos conservam sempre, por muito urgente que seja a necessidade de um apostolado activo, um lugar preferencial no corpo místico de Cristo. Eles são a honra da Igreja e uma fonte de graças, através de uma secreta fecundidade apostólica, que se adquire pela dedicação exclusiva às coisas de Deus na solidão e no silêncio, na oração assídua e numa alegre penitência. Também a vida monástica e conventual deve manter-se de tal modo adaptada que os mosteiros sejam como centros vivos para edificação do povo cristão.

Os institutos votados à vida apostólica exercem a sua vocação própria na Igreja: o serviço ao servir, o ensinamento ao ensinar, a exortação ao exortar, com um dom sem cálculo e uma misericórdia radiante de alegria. É a partir da sua união íntima com Cristo que irradia a sua actividade apostólica ao serviço dos seus irmãos, exercida sempre em nome da Igreja.

 

V. Vida religiosa laical e institutos seculares.

A vida religiosa laical é fortemente útil à missão pastoral da Igreja na educação dos jovens, junto dos doentes e outras formas de apostolado. Nos institutos de frades, alguns membros podem receber as sagradas ordens para ajudar às necessidades do ministério sacerdotal nas suas casas, por uma disposição do Capítulo Geral.

Os institutos seculares, sem serem institutos religiosos, têm também eles uma verdadeira e completa profissão dos conselhos evangélicos no mundo, reconhecida como tal pela Igreja. Os seus membros devem ter em mente, antes de mais, entregarem-se inteiramente a Deus na caridade perfeita. Devem guardar o carácter secular que lhes é próprio e específico, a fim de exercer em qualquer parte e eficazmente o apostolado no mundo, apostolado para o qual foram criados. Estão no mundo como fermento e, por isso, necessitam de uma sólida e dupla formação: humana e espiritual.

 

VI. Castidade, pobreza e obediência

O religioso é pobre, casto e obediente para imitar a Cristo, e ser, no meio do mundo, a presença fraterna e resplandecente das realidades futuras. Não é uma pura disciplina de acção, para uma maior disponibilidade concreta, mas uma implicação profunda de todo o ser envolvido por Cristo no centro da sua existência.

A castidade por amor do reino dos céus é um grande dom da graça, que liberta o coração do homem e faz dele um sinal do amor ardente de Deus. A castidade exige uma ascese, e pede uma provação suficiente e uma maturidade psicológica e afectiva indispensáveis para uma verdadeira integração no desenvolvimento pessoal.

A pobreza voluntária para seguir a Cristo é um sinal particularmente bem visto nos nossos dias. Não consiste somente em depender dos superiores no uso dos bens, mas em ser pobre efectivamente e em espírito, individualmente e em comunidade, e cumprir o peso da lei comum do trabalho.

A obediência é a oferenda total da vontade, como um sacrifício a Deus, a exemplo de Cristo que se fez servo dos seus irmãos. Longe de diminuir a dignidade da pessoa humana, a obediência leva à maturidade fazendo crescer a liberdade dos filhos de Deus. De resto, os superiores levarão os religiosos a colaborar em prol de uma obediência responsável e activa, quer no cumprimento da sua missão quer nas iniciativas a tomar. Escutá-los-ão voluntariamente, animarão o seu esforço comum para o bem do instituto e da Igreja, usando sempre da sua autoridade quando for necessário decidir e ordenar o que deve ser feito.

O concílio fala também da importância da vida comum na vida religiosa, a exemplo da Igreja primitiva onde no livro dos Actos dos apóstolos se diz que a multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma. A comunidade deve ser uma verdadeira família reunida em nome do Senhor, um sinal vivo do seu amor.

 

VII. Disposições práticas

A clausura papal das monjas de vida exclusivamente contemplativa deve manter-se, sendo no entanto adaptada. Aquelas que se envolverem em obras exteriores de apostolado terão uma clausura fixada pelas suas constituições.

O hábito religioso, sinal da consagração a Deus, deve ser simples e modesto, ao mesmo tempo que pobre e apropriado, adaptado às circunstâncias do tempo e dos lugares, bem como às necessidades do apostolado.

A renovação adaptada da vida religiosa depende sobretudo da formação dada. O concílio pede também que os institutos disponham dos meios necessários para uma verdadeira formação espiritual, apostólica, doutrinal e técnica, conduzida por mestres espirituais e professores.

A fundação de novos institutos deve ser decidida com sabedoria e prudência, em especial nos novos lugares cristãos, para responder ao carácter e aos costumes dos habitantes, às condições de vida e aos costumes locais.

A manutenção, adaptação ou abandono das obras próprias de cada instituto devem ser decididas tendo em conta as necessidades da Igreja e da sociedade. O mais importante é manter em todos os institutos o espírito missionário. Os institutos ou mosteiros em decadência devem ser suprimidos. As federações, uniões ou associações devem reunir-se, e devem instituir-se conferências de superiores maiores para uma colaboração mais eficaz para bem de toda a Igreja.

Finalmente, no que diz respeito às vocações, o concílio lembra que o exemplo da sua vida é o melhor testemunho e convite para abraçar a vida religiosa.

 

VIII. Testemunho evangélico junto do povo de Deus

Sete anos depois do documento conciliar que apresentámos, o papa Paulo VI, diante de uma situação de incerteza e de instabilidade que se estava a instalar, escreveu a todos os religiosos e religiosas do mundo inteiro, a 29 de Junho de 1971, uma Exortação apostólica intitulada Evangelica testeficatio. No meio de um inegável dinamismo onde o espírito do mundo corre sempre o perigo de se misturar com a acção do Espírito Santo, o papa chama a atenção para o discernimento necessário para renovar a fidelidade aos compromissos da castidade, pobreza e obediência consagrados, e pela alegre participação na missão da Igreja, dar o testemunho evangélico mais necessário que é o do amor do Senhor.

Seis anos mais tarde, a 23 de Abril de 1978, Paulo VI aprovou as directrizes de base estabelecidas pela Congregação para os bispos e pela Congregação para os religiosos e institutos seculares, para as relações entre os bispos e religiosos na Igreja, com data de 14 de Maio de 1978: Mutuae relationes. Bispos e religiosos são chamados a estar atentos à única missão do povo de Deus, que não se pode reduzir a uma actividade exterior, mas que seja sempre testemunha da boa nova da salvação de Jesus Cristo. Todos membros uns dos outros no mesmo corpo destinado a testemunhar e a anunciar o Evangelho, os bispos, instituídos para ensinar, santificar e governar, são mestres, padres e pastores de todos os fiéis, em nome de Cristo, pela graça do Espírito Santo.

Segundo o seu carisma próprio, todos os institutos religiosos nasceram para a Igreja, e foram consagrados para testemunhar publicamente que o mundo não pode ser transfigurado e oferecido a Deus sem o espírito das bem-aventuranças. São necessários o diálogo e a colaboração a todos os níveis, diocesano, nacional e internacional, baseados na confiança recíproca e no respeito do papel de cada um. Por isso, conclui o documento, as relações mútuas entre os bispos e os religiosos, conduzidas com uma vontade sincera e activa, experimentarão, de modo favorável e adaptado, a vitalidade dinâmica da Igreja-sacramento na sua admirável missão de salvação.

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