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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 2. Quem dá a fé?



 

 

 

A graça é a atitude plena de amor de Deus para com os homens, segundo a qual ele vela sobre eles na sua providência, os perdoa na sua misericórdia, os santifica na sua bondade. A graça é, pois, também a obra de Deus no homem para o conduzir à posse definitiva da vida eterna. A graça é a acção do Espírito Santo no homem para lhe comunicar o amor do Pai e do Filho e de o fazer viver assim na comunhão com Deus.

A graça de Deus manifesta-se antes de mais por um acto de eleição. Deus, no seu amor, escolheu cada homem para o tornar seu filho e o conduzir à comunhão perfeita com ele. Este acto de eleição cumpre-se nos actos de predestinação. Deus escolheu os momentos propícios da história de cada homem para criar nas ocasiões que o permitam reencontrar-se com Cristo. Ele prevê as intenções do homem para o levar a escolher o caminho que o levará a Cristo e à decisão de acreditar nele, de o seguir e de lhe obedecer. A predestinação, como a eleição, é puramente gratuita. Deus não olha à boa vontade do homem para o atrair a si. Ele percorre todo o caminho que o separa do coração do homem pecador e lá coloca as intenções inspiradas da sua graça. É pelo dom puro e gratuito da parte de Deus que o homem pode começar a entrever a luz de Cristo. A predestinação da graça significa que antes e depois de todas as nossas intenções positivas relativas a Deus há uma acção do Espírito Santo, que conduz a nossa inteligência e a nossa vontade para os submeter ao amor de Cristo.

Há uma imagem que pode fazer pressentir este mistério de eleição e de predestinação. Podemos comparar a graça de Deus à força de um rio que leva tudo consigo à sua passagem. Os homens, tarde ou cedo, encontram-se apanhados por esta corrente de graça que os arrasta para a vida eterna. Levados pela corrente deste rio, eles sabem que não são ninguém nesta força constrangedora que os precedeu, tirou da sua incredulidade ou da sua indiferença e os encaminhou para o Reino de Deus. Eles não encontram nela a fonte dessa graça; ela é uma força muito exterior e anterior á sua boa vontade; é Deus que, pela eleição e pela predestinação, é a fonte dessa graça que liberta e faz entrar o homem no poder de ser quem é. O homem, assim envolvido nesta corrente de graça que o precedem e o sustém, deixa-se levar só por Deus e pela sua salvação. Mas, porque Deus o criou livre, o homem tem a possibilidade de resistir a esta corrente, ele pode resistir às correntes do rio; ele recusa deixar-se levar por Deus, ele resiste à força da graça e prepara assim a sua ruína. A salvação é um consentimento à graça em que a o seu poder nos pressiona de todos os lados. O pecado contra o Espírito, que nos conduz à nossa perdição, é a resistência obstinada à graça.

Assim escolhido e predestinado, o homem, deixando-se levar pela corrente da graça, capta o apelo de Deus, a vocação à vida cristã. Ao chamar o homem a acreditar nele, a nele ter confiança e a ele obedecer, Deus dá-lhe também a força de progredir nesta vocação. O sim que ele pronuncia no seu coração, o homem di-lo de si mesmo, mas di-lo graças ao Espírito Santo que lhe revela a alegria deste consentimento. Sem esta graça da presença do Espírito Santo, o homem não poderia acolher o apelo de Deus; mas, apesar desta presença, ele poderia ainda resistir à vocação que Deus lhe concede; é necessário, então, o consentimento de todo o seu ser à graça de Deus, consentimento humano que recebe a força pelo Espírito Santo que vem persuadir o seu coração.

A resposta positiva do homem à vocação de Deus restabelece-o na comunhão de um filho com o Pai, comunhão perdida por causa do pecado.

Esta comunhão com Deus volta a dar ao homem todas as possibilidades de reencontrar os valores da sua natureza original. Ele vive esta comunhão pela fé que é um dom de todo o seu ser ao amor do Pai, uma ligação fiel a Cristo, uma verdadeira disponibilidade ao Espírito Santo.

Nesta comunhão com deus pela fé, o homem é justificado e santificado. A justificação pela fé, que se realiza na comunhão reatada com o Pai, na vida em Cristo e pelo Espírito, é o dom da misericórdia que Deus dá ao homem; ele perdoa-lhe todo o seu pecado, ele justifica-o, ele torna-o justo aos seus olhos, porque o homem tem toda a sua fé em Deus. Deus não justifica o homem pelas suas virtudes espirituais ou morais, ele não liga a mais nada a não ser a fé, união de todo o seu ser, para o considerar como justo e perdoar-lhe tudo.

No entanto, esta justificação continua na santificação. O Deus que justifica, concedendo-lhe a graça de uma comunhão reencontrada com ele pela fé, também o santifica, porque a fé traz consigo os seus frutos. O homem justificado, perdoado, por causa da fé que o une a Deus, deve levar à transformação da sua vida que o Espírito Santo vem dar.

A santificação da vida do cristão, querida pelo Pai que o justificou pela sua fé, realiza-se na união com Cristo, morto e ressuscitado por nós, e pelo Espírito Santo que trabalha em nós através da Palavra de Deus e dos sacramentos da sua presença. Mas, se é o Espírito Santo que nos traz a santificação, que traz à nossa fé todos os seus frutos de caridade, nós temos de deixar acontecer essa transfiguração de todo o nosso ser. O pecado, que renasce continuamente em nós, pode comprometer essa santificação; nós devemos aceitar vencê-lo com as armas do Espírito Santo que combate em nós e por nós, até que nós cheguemos ao termo do nosso caminho para entrarmos no Reino de Deus.

(fr. Max, de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op)

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