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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 37. A pobreza e a pureza



 

 

A pobreza é a convicção do cristão de que depende só de Deus. É um sentimento de vazio que só Cristo poderá encher da sua plenitude. A pobreza recusa as certezas que este mundo pode dar, para manifestar a sua única segurança que está em Deus. Ela é desapego em relação à propriedade, à posse, ao poder, que significa que tudo está em Deus. O cristão considera-se como um intendente dos bens de Deus.

«Felizes os pobres de coração, porque deles é o Reino dos céus» (Mt 5, 3). O espírito de pobreza, de desapego da propriedade individual, da possessão exclusiva, do poder pessoal, dispõe o cristão a possuir o maior bem, só esse o pode preencher, a alegria do Reino de Deus. Esta plenitude da alegria só é dada àquele que está pronto a tudo abandonar para o amor de Cristo e do próximo.

Este espírito de pobreza do cristão, que o torna disponível para a pobreza material possível, não se acomoda facilmente com a pobreza dos outros. O cristão combate pelas melhores condições sociais e económicas de todos os homens. O espírito de pobreza dá-lhe o gosto de partilhar com os outros o que Deus lhe dá de dons espirituais ou materiais. O cristão está de acordo com todas as formas de comunidades de trabalho e de vida que assegurem uma justa partilha dos bens da terra a cada homem.

A pureza é a vontade de um amor fiel. A pureza do coração é sinceridade, castidade e simplicidade. Ela tem a sua fonte no nosso amor por Cristo; é ele que, pela plenitude do seu amor por nós, pode dar-nos uma autêntica sinceridade de coração no nosso amor por ele e pelos outros. A pureza de coração dá ao cristão a fidelidade no amor de caridade e no amor humano.

O coração do homem, na sua complexidade, é normalmente tentado pela mudança e pela infidelidade no amor. O homem, por causa do pecado, não é naturalmente estável no amor humano. É o amor de caridade, sacrificado e generoso, que gera a pureza de coração, que pode dar a sinceridade, a estabilidade e a fidelidade no amor, sem a qual só há desordem, desespero e desgosto.

A castidade, fruto da pureza de coração, é o domínio da vida sexual e sentimental. O cristão não tem que suprimir em si, por um constrangimento puritano, as aspirações das suas possessões de amor. No entanto ele sabe que essas possessões, se são incontroladas, podem causar a desordem no coração e a dependência imoderada às expressões físicas do amor. A castidade no casamento consiste num acordo consciente do homem e da mulher; esse acordo pode implicar para um e para outro um pouco de sacrifício, que será acolhido como um dom de si ao outro, uma mortificação do egoísmo para a verdadeira alegria do outro, segundo as suas exigências.

A castidade no celibato é estimulada pela certeza de que as possessões amorosas podem trazer por outro lado mais frutos espirituais na caridade, a vida contemplativa, o serviço aos outros, que não se colocam numa satisfação egoísta que enche o homem de si mesmo. O homem não deve dar relevo a este problema sexual na sua vida. Ele deve saber que o seu psíquico, às vezes ferido, o impulsiona a verificar as suas faculdades de amar e pode constituir para ele uma tentação. É a união a Cristo, pela oração, o dom generoso de si aos outros, no serviço e no sacrifício, que fortalecem o homem na castidade, o impede de se encher de si próprio, o mantém forte e livre para o amor e serviço disponível a Cristo. A confissão e a eucaristia são uma ajuda eficaz para manter a pureza de coração na castidade.

A pureza de coração é finalmente simplicidade. Para o cristão, o amor a Cristo e aos outros é um amor simples, que evita as complexidades e as sinuosidades da vida. O cristão é franco e directo nas suas relações com os outros; mas, por amor ao próximo e por respeito pela sua sensibilidade, ele tem um tacto afinado como fala são Paulo, para não ferir o outro. A caridade é discreta e não exibe as dificuldades que existem entre homens, mas ela é franca e simples; ela leva o cristão a viver na paz e na simplicidade os diferendos que o possam separar dos outros. O cristão simplifica tudo à sua volta: a sua existência material, as suas relações com os outros, os seus projectos, as suas ambições.

Basta-lhe conhecer a única coisa necessária: o amor de Deus e do próximo; o resto é para ele de uma importância relativa.

«Felizes os puros de coração porque verão a Deus» (Mt 5, 8). A pureza de coração, a sinceridade, a castidade e a simplicidade, têm a promessa da visão de Deus. Aqueles que não têm o coração dividido entre o verdadeiro amor de caridade que vivifica o amor humano e a procura da satisfação dos desejos egoístas, estão disponíveis para a visão de Deus, olhar simples da oração e da vida contemplativa. Eles entrarão inteiramente no Reino de Deus, porque vêem a Cristo com a pureza de um coração simples, na vida de oração e na pessoa dos irmãos.

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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