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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

SD0 São Domingos, mestre e modelo de oração

Por André Duval, op
Trad.: Teresa Martins de Carvalho


 

 

 

SÃO DOMINGOS, MODELO E MESTRE DE ORAÇÃO

Meio século depois da morte de São Domingos (6 de Agosto de 1221), alguns frades da sua Ordem já gostavam de o venerar, de modo especial, como modelo e mestre de oração. Circulava entre eles um livrinho ilustrado que mostrava e descrevia a variedade de atitudes, dos movimentos e dos sentimentos últimos de São Domingos, no decurso das longas horas, sobretudo da noite, entre Completas e Matinas, que ele dedicava ao louvor, à meditação e à intercessão.

Cantando como David, ardendo com o fogo de Elias, ávido da caridade de Cristo, ele alimentava, assim, a sua imensa confiança na misericórdia de Deus, o que o levava a implorar incessantemente pela conversão do mundo e a envolver de solicitude os irmãos que ia enviando para o meio do mundo a pregar o Evangelho.

As nove maneiras de rezar de São Domingos propagaram assim esta imagem que não é puramente gratuita. Nela encontramos os traços, já fortemente marcados quarenta anos antes, por frades que conheceram pessoalmente São Domingos, com veneração e amor, e que são testemunhas no processo preliminar (1233) da sua canonização. Não trazem, também, as Constituições mais antigas da Ordem, no capitulo da celebração litúrgica e da oração, a marca de algumas opções do fundador? Quem é Domingos?

 

O rápido itinerário de um fundador

 

Depois de oito anos de confrontos (1206-1214), empunhando apenas a palavra como arma – mesmo em tempo de cruzada –, com militantes e adeptos das heresias cátaras, subtilmente infiltradas no Languedoc, bastaram seis anos (1215-1221) a este cónego espanhol da diocese de Osma, para conceber estruturas e propagar uma Ordem religiosa que punha em pratica os pedidos e decisões do IV Concilio de Latrão (Novembro de 1215) sobre a pregação da fé, a formação teológica do clero e o anúncio do Evangelho para além das fronteiras da cristandade.

 

Um homem de acção

 

O fundador da Ordem dos Pregadores – tal é o nome que a Sé Apostólica aceitou rapidamente para esta nova família religiosa – é um notável homem de acção.

"Sei o que faço…" Esta réplica com que Domingos, nesta ou naquela circunstância, desconcerta os seus amigos e conhecidos, com a ousadia das suas decisões, é bem reveladora da personagem: nitidez nos fins a atingir, juízo ponderado na escolha dos meios, facilidade, clareza e calor nas relações humanas, condições indispensáveis em todas as realizações práticas. Os passos dados, com perseverança e assiduidade, junto do Papa Honório III e da chancelaria papal, conduzem a definição dos elementos fundamentais da nova instituição, que assim se estabelece numa situação canónica original. As deliberações tomadas com a comunidade dos irmãos (Capítulos Gerais de 1220 e 1221), dão à Ordem uma legislação e órgãos de governo que lhe vão permitir conservar a sua identidade através da evolução das sociedades humanas, cuja evangelização constitui a razão de ser da Ordem – evangelizationi verbi Dei totaliter deputati, "religiosos totalmente votados ao anuncio da boa nova da palavra de Deus" (Honório III, 4 de Fevereiro de 1221).

 

Uma graça de oração

 

Este homem de acção é, no entanto, fundamentalmente, um homem de oração. Na raiz de todas as suas iniciativas, diz-nos Jordão da Saxónia, seu sucessor imediato a cabeça da Ordem, está "uma graça especial de oração pelos pecadores, pelos pobres, pelos aflitos, cujas infelicidades ele carregava no santuário íntimo da sua compaixão… "

"Só falar com Deus ou de Deus…" Tendo feito sua como regra de conduta, a recomendação recolhida pelos discípulos de Santo Estêvão de Muret (+ 1124), fundador dos eremitas de Grandmont, Domingos deu-a como divisa aos seus filhos.

 

Fervor na celebração litúrgica

 

A celebração da liturgia na igreja conventual, junto da qual de agora em diante todas as comunidades de Pregadores se devem construir, constitui naturalmente o ponto de apoio e o local de convergência das acções orantes de Domingos. Para ele, o canto de Completas prolonga-se numa vigília que dura toda a noite, só interrompida pelo Oficio de Matinas.

Vêem-no, então, no meio dos frades "indo e vindo de um lado para o outro do coro, exortando-os e animando-os a cantar em voz alta e com devoção". E depois, onde dorme? Não se sabe bem – terá mesmo uma cama no convento? Dão com ele a dormir sobre os degraus do altar ou vêem-no a cair de sono, no refeitório.

O ritmo das horas litúrgicas é o da sua vida quotidiana, esteja onde estiver. "Mesmo em viagem, conta o prior do convento de Bolonha, em 1223, frei Domingos celebrava a Missa quase todos os dias, se encontrava uma igreja.

E quando cantava a Missa, derramava lágrimas abundantes – vi-o com os meus próprios olhos. Quando chegava a um lugar onde ia ficar hospedado, se havia uma igreja, logo a ela se dirigia para rezar. Do mesmo modo, quase sempre, quando estava fora do convento, levantava-se e acordava os frades assim que ouvia soar nos mosteiros os primeiros toques de Matinas; celebrava com muita devoção todo o Oficio divino, de dia e de noite, nas horas canónicas, sem nada omitir. Caminhando pela estrada, durante as viagens, guardava silêncio depois de Completas e pedia aos seus companheiros que o fizessem também, como se estivessem no convento".

De manhã, quando se punha a caminho, observava o silêncio, e fazia os frades observá-lo também, até por volta da hora Tércia. Pelo caminho, com "a sua bela voz, forte e sonora" – como nunca mais a esqueceria a monja Irmã Cecília – cantava com gosto a Ave Maris Stella ou o Veni Creator.

Seguramente, tal modo de habitar a liturgia não é de surpreender numa pessoa piedosa do séc. XIII. No contexto, já hagiográfico, de um processo de canonização, um testemunho destes é, de certo modo, previsível, para sublinhar a intensidade excepcional da sua devoção. Mas nada ele nos diz das preferências e das opções originais do fundador, se é que existem, nos que diz respeito a maneira de equilibrar a vida de oração nas suas comunidades.

 

Um estilo de celebração

 

Mais sugestivos nos parecem então, no decurso do mesmo inquérito de 1233, as afirmações do prior do convento de Pádua, cuja insistência parece incidir, à primeira vista, noutro domínio muito querido da primeira geração dominicana, o da pobreza.

Amante da pobreza... ele também a exigiria nos edifícios e nas "igrejas dos frades, no culto e na decoração dos ornamentos eclesiásticos. Durante toda a sua vida procurou, com grande cuidado e esforços, que os seus frades não usassem nas igrejas vestes de púrpura ou de seda, em si mesmos ou nos altares e que não possuíssem vasos de oiro ou de prata, exceptuando os cálices".

Estas determinações de despojamento são significativas. Tanto em matéria de culto como em matéria de observância, os pontos de referência, de Domingos são os cónegos da Ordem de Premonstratense ou os monges de Císter, cujo empenho na austeridade é bem conhecido. Lembramos aqui São Bernardo, denunciando, como sobrevivência do Antigo Testamento, o fausto litúrgico de certos monges negros; Lembramos São Pedro Damião, deplorando não conseguir encontrar em Cluny o tempo de recolhimento solitário de que necessitava, de tal modo as cerimónias se prolongavam pelo dia todo.

Alguns textos legislativos, escritos sob o olhar de Domingos ou talvez mesmo por ele próprio, permitem descobrir as suas opções pessoais, fora do ambiente hagiográfico do processo da canonização. Tal é, de facto, o sentido de uma fórmula muito breve das Constituições primitivas da Ordem, sob o desenvolvimento, em tempo e solenidade, a de dar ao Oficio divino na economia do horário quotidiano de um convento: a celebração do Oficio coral devera ser "breve e sóbria, breviter et succincte", de modo a que os frades não lhe percam a devoção e que a vida de estudo não seja afectada".

 

Devoção interior – Palavra de Deus – Missão

 

O texto acima referido prossegue, com precisão técnica, sobre a maneira de salmodiar breviter et succincte. Os historiadores e os praticantes do canto gregoriano não se entenderam facilmente sobre a exegese destas directivas, ao ponto de, muitas vezes, negligenciarem atenção aos considerandos, que são, no entanto, de maior alcance: "Não comprometer a devoção dos frades". A preocupação de interioridade, que se exprime nesta recomendação, não deriva, de modo nenhum, da oposição mais "moderna" entre a oração mental e a oração vocal.

Seria bastante difícil imaginar, naquele tempo, uma oração cujas palavras não fossem todas pronunciadas; saber fazer oração em silêncio exige uma aprendizagem que as mesmas primeiras Constituições inscrevem no programa de educação dos noviços (quomodo et quid orent, et quam silenter ne aliis rugitum faciant). A "devoção" a que se alude é, simplesmente, com algumas harmónicas complementares, essa atenção do coração ao que pronunciam os Iábios, atenção recomendada pela regra de Santo Agostinho, uma presença activa diante de Deus. Assim, o canto dos salmos não é um absoluto; haverá sempre ocasião de perguntar para que serve isso e em que condições permite a Igreja militante juntar-se ao louvor da Igreja triunfante.

"Não prejudicar a assiduidade ao estudo". Tratava-se do estudo da Palavra de Deus que o prólogo das mesmas Constituições declara dever, "por princípio, e com ardor e com todas as nossas forças, tender a nos tornar capazes de sermos úteis à alma do próximo", o que justifica que possa ser, tal como a pregação, princípio de dispensa no que diz respeito as diversas modalidades da observância. Se a dispensa tem em vista os casos particulares, no texto aqui considerado trata-se mais de um principio geral, permanente, válido para todos e de que deve depender a organização de todo e qualquer horário conventual e o ritmo de todas as celebrações.

Se o ordenamento da liturgia deve ter em conta o tempo necessário para o estudo, isso é porque este, com todo o seu peso, deve tender para a "utilidade do próximo". Esta primeira legislação dominicana provém da convicção de que há continuidade harmoniosa entre o "falar com Deus" e o "falar de Deus", entre os textos de oração, os textos de estudo e o modo de pregar. De um ao outro não se muda de registo pois utilizam-se as mesmas categorias e fala-se a mesma língua. Deste modo, é assim entendido e dito, logo nas origens, que a celebração da liturgia, imutável na sua orientação fundamental para Deus, não poderá realizar-se, entre Pregadores, sem ter em conta a missão da Ordem na Igreja.

 

Uma liturgia especial?

 

Nesse caso, porque é que aparece, rapidamente, uma liturgia especial dominicana? Porque não era possível fazê-lo de outra maneira!

Ofício monástico ou canonical? Isto é, quatro salmos e quatro leituras em cada nocturno de Matinas ou três salmos e três leituras? A escolha de um Oficio de tipo canonical foi uma das opções iniciais dos primeiros companheiros de São Domingos em Toulouse, "para não nos singularizarmos e seguirmos o uso das Igrejas", explica Humberto de Romans, Mestre da Ordem de 1254 a 1263. Vale a pena sublinhar esta reflexão, vinda como vem daquele que mais contribuiu para completar a liturgia própria dos frades pregadores.

Efectivamente, não podia a Ordem nascente alinhar-se pura e simplesmente pelo que se poderia chamar a liturgia comum das Igrejas latinas. Apesar de parentescos evidentes, essa unidade não existia então, nem nos textos nem nos ritos, nem no calendário – cada igreja catedral, cada família religiosa – era dona, dentro de certos limites, da sua própria liturgia.

A liturgia dominicana nasceu desta situação, não em virtude da necessidade de se singularizar, mas por exigência interna de uniformidade. Numa Ordem em que a circulação de um convento para outro, através da Europa, sobretudo por causa dos estudos, não se dava ao acaso, mas era lei da natureza da própria Ordem, e numa época em que a cópia de livros é demorada e cara, a unificação dos usos e dos textos aparece-nos como necessidade indiscutível. Decide-se, assim, escolher uma liturgia comum.

Colocados diante do mesmo problema, os frades Menores escolheram seguir a liturgia de Roma em todo o lado que estivessem. Foram, deste modo, os agentes eficazes da difusão europeia desta liturgia na Idade Media.

 

Para uma pastoral de oração

 

Uma coisa é certa, em qualquer caso: nas circunstâncias em que se estabelece, este inevitável particularismo litúrgico não irá abafar, entre os Pregadores, a preocupação pela salus animarum que Domingos lhes deixou como principio unificador da vida regular. Ao mesmo tempo, de facto, a fidelidade da Ordem à sua vocação original arrasta-a para a tomada de iniciativa no campo da oração do povo fiel. O acordar para a fé e a educação desta, não conduzirá directamente ao grito dirigido a Deus "Abba, Pai"? Não acabará o acolhimento sincero do Evangelho por conduzir a oferenda do sacrifício espiritual?

Mas, quem então poderia pensar em destruir a barreira do latim que, nessa altura e ainda depois por mais uns séculos, se reduzia aos leigos a unirem-se, em silêncio, ao canto dos religiosos ou a murmurar discretamente as orações que conheciam: o Pater, a Ave Maria…?

Pregando nas suas igrejas, no centro das cidades, Pregadores e Menores nelas fixam e aperfeiçoam a sua clienteIa, abrindo-lhes, ao mesmo tempo, caminhos novos de oração.

Em alguns locais, as igrejas dominicanas, com duas naves, são o símbolo dessas inovações: não pela celebração do Oficio divino numa das naves e com a assistência silenciosa na outra, mas alternadamente, com a celebração litúrgica numa das naves e a pregação na outra; mais exactamente, no que diz respeito à oração, aqui a oração comum dos religiosos, ali a animação, por um ou mais frades, da celebração dos fiéis. Em Itália ou noutros lados, as capelas laterais, abertas nos flancos de uma grande nave central, irão acolher, do mesmo modo, os vários grupos de louvor e intercessão que se reúnem, de tempos a tempos, com os frades, nas procissões solenes.

É com os frades mendicantes, com as suas pregações, as suas ordens terceiras, as suas confrarias, que nasce, a margem ou para além da liturgia "oficial", uma pastoral de oração do povo cristão.


"Quando Domingos estava no convento

ficava às vezes diante do altar,

de pé

com o corpo muito direito desde os pés,

sem se apoiar em nada;

as mãos colocadas diante do peito

como se fossem um livro aberto...

Viram-no, outras vezes,

rezar com as mãos abertas,

os braços estendidos, com vigor,

em forma de cruz.

Viram-no também muitas vezes erguer-se

a toda a altura, para o céu,

como se fosse a flecha

que um arco bem tenso

tivesse, lançado directamente para o azul.

as mãos estendidas com força,

muito unidas uma a outra,

ou levemente abertas,

como para receber alguma coisa do céu ...

 

do CODEX ROSSIANUS "Modos de rezar de São Domingos"

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