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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 32. A alegria e a paz



 

 

 

A alegria é a atitude cristã que manifesta a fé na ressurreição de Cristo, vencedor do mal e da morte, e a esperança na ressurreição dos crentes, para a vida eterna no Reino de Deus. A fonte da alegria cristã está na vitória da Páscoa. É porque ele tem a certeza da vitória alcançada por Cristo sobre a morte e do poder do Senhor sobre o mundo que o cristão pode estar sempre alegre, mesmo nas dificuldades e nos sofrimentos. O cristão vive como um homem ressuscitado que tem o poder de uma vitória sobre o mal e sobre o sofrimento. Ele não pode nunca ficar totalmente abatido.

A alegria cristã, fundada sobre a fé na ressurreição faz-nos sair de nós mesmos, das nossas dificuldades e das nossas angústias, e transporta-nos para a contemplação de Cristo glorioso; ela dá-nos o desapego em relação ao mundo do pecado que gera a tristeza, para nos fazer saborear a alegria do mundo invisível dos santos, reunidos à volta do Ressuscitado. É a nossa vida unida a Cristo em Deus que nos eleva e garante a nossa alegria. A alegria cristã é também escatológica, ela é inflamada pela perspectiva do regresso glorioso de Cristo. Esta alegria destrói a inquietação dos nossos corações e conduz-nos à oração. O testemunho discreto e simples dessa alegria é um sinal impressionante da presença de Cristo em nós, ele que é a nossa vida e a nossa alegria. Esta alegria, mesmo nos sofrimentos e nas dificuldades, é uma prova da vitória de Cristo ressuscitado em nós e leva-nos a glorificar a Deus.

Mas a alegria cristã não é fácil. Ela é o fruto de um combate da fé contra os poderes do mal que, apoderando-se da nossa psique doente, quer sempre deixar-nos tristes.

Haverá dias em que o homem, angustiado e infeliz, desejaria esconder-se e chorar sobre si próprio. Mas a alegria de Cristo está lá, vela sobre a pessoa, vem tirar-nos da solidão e da inquietude, e levar-nos à festa do Reino de Deus, onde a comunidade dos santos de Cristo canta e alegra-se.

A alegria cristã é também comunhão com todos os homens, comunhão nas suas esperanças, nas suas alegrias. Ela maravilha-se diante da criação de todas as belezas da vida humana; ela manifesta assim que Cristo é plenamente homem com todos os homens. Não comparou ele a comunhão do Reino de Deus a uma grande festa de bodas? Não partilhou ele a sua alegria e comeu com os publicanos e pecadores na casa de Levi? A alegria cristã, plenamente humana, é o remédio para a angústia e para a tristeza para os homens que esperam inconscientemente que os cristãos lhes dêem um sinal de comunhão e de compaixão, uma esperança de verdadeira felicidade, pela sua alegria tranquila que irradia de Cristo.

A paz é irmã da alegria. Ela tem também a sua fonte na certeza da ressurreição e da realeza de Cristo. Nada poderá atingir o cristão, de forma catastrófica, porque ele está totalmente unido ao amor de Cristo. São Paulo escreve: "Por nada vos deixeis inquietar; pelo contrário: em tudo, pela oração e pela prece, apresentai os vossos pedidos a Deus em acções de graças. Então, a paz de Deus, que ultrapassa toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus" (Fil 4, 6-7). É na vida de oração que o cristão alimenta no seu coração esta paz que vem de Deus. Ele tudo pode confiar e entregar a Cristo, as suas preocupações, as suas inquietações, os seus problemas, na certeza de que Deus, na sua compaixão, ocupar-se-á de tudo e encontrará a verdadeira solução. Ele pode, então, esperar na paz, mesmo se a resposta à sua oração não é imediata. Na paz, conservada pela oração, o cristão encontra a unidade da sua pessoa, por vezes dividida pelos acontecimentos e tentações da existência.

A paz é o fruto da reconciliação do homem com Deus e com ele próprio. O homem, por vezes ferido pela vida, tem de se aceitar como é. Ele tem a tendência de se julgar severamente, de se ter como indigno, com um pesado complexo de culpabilidade, a recusar a sua natureza, a sua afectividade, a sua sexualidade, a sua agressividade… A paz encontrada na oração produz no homem, pouco a pouco, a reconciliação em si destas tendências divergentes e às vezes aflitivas. A paz fá-lo aceitar tal como é, dominar a sua natureza ferida, harmonizar nele a razão, a vontade, o coração e o corpo, de os submeter livremente e simplesmente ao amor de Deus e do próximo, de confessar o que realmente é pecado nele, em vista do perdão de Deus, de se alegrar da sensibilidade que Deus lhe deu e que pode ser um verdadeiro meio de comunhão humana.

O cristão é um homem de paz interior que irradia e procura a paz. Numa das Bem-aventuranças proclamadas por Jesus declara: "Bem-aventurados os que fazem a paz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5, 9). O cristão que irradia a paz, procura a paz, promove a paz à sua volta, é digno do próprio título de Cristo; ele é chamado filho de Deus. Esta obra da paz pode fazer-se em vários domínios: no meio dos homens que nos rodeiam, em relação à guerra no monde, para a unidade visível de todos os cristãos.

O cristão, que descobre e conserva a paz interior pela vida de oração, tem, pela sua atitude pacífica, a possibilidade de fazer descobrir ao seu próximo esta mesma paz interior; isso faz parte da caridade do cristão que deve comunicar a paz de Cristo aos outros, para que atraídos por ela, eles estejam em paz com Deus e com eles próprios, encontrem a sua unidade interior. O cristão gera também a paz entre os homens que o rodeiam; ele previne ou apazigua as discórdias, as disputas, as dissensões; ele não se alegra nunca com as divisões que surgem entre os homens; ele prefere sempre a paz e a unidade.

Em relação ao problema da guerra, o cristão deve ser um militante da paz, custe o que custar. A guerra nunca é uma solução para qualquer problema político ou social. Não há guerras justas. É certo que o cristão pode ser chamado a defender os que vivem com ele, num mesmo lugar, contra a violência inevitável proveniente do exterior. Mas para ele essa defesa contra a violência é uma necessidade que não traz uma solução durável; só a reconciliação e a paz entre os homens são as soluções eficazes, porque positivas. O cristão deve ser um apóstolo da paz entre os homens entre os povos, de uma paz que pode ir até aos mais duros sacrifícios, seja a guerra que deve ser sempre evitada seja a forma mais odiosa do orgulho humano. O cristão não pode admitir as armas como um instrumento ao serviço da paz que se deve tornar aos poucos inúteis. A objecção de consciência é uma vocação para alguns cristãos.

Na Igreja, no meio dos cristãos divididos, existe também uma obra de paz em vista da unidade visível de todos: o ecumenismo. O cristão deseja, segundo a oração do próprio Cristo, que todos encontrem a unidade visível numa só Igreja. Não pode considerar que as divisões entre cristãos, que os cismas na Igreja possam ser válidos e duradoiros. Ele não gosta de polémicas nem de proselitismos. Se ele tem que afirmar a sua fé, ele fá-lo com uma profunda compreensão das convicções dos outros cristãos. Esta compreensão não implica negação ou confusão, mas espírito de paz que implora a unidade da fé, onde os homens não podem ainda ver outra coisa senão a oposição ou divergência. Ele não procura senão comunicar aos outros cristãos o seu ponto de vista, porque ele tem confiança que só o Espírito Santo pode persuadir um coração à verdade de Cristo. Se ele deve testemunhar a sua fé, deve-o fazer com um profundo respeito para com a liberdade de consciência dos outros. A verdade de Cristo não afirma nem o constrangimento político, nem a actividade prosélita, para encontrar a sua vitória pacífica: é na paz e na doçura que o Espírito Santo age com a palavra de Deus, para conduzir à plena luz de Cristo; não existem desejos de poder e agitações humanas.

A evangelização é um testemunho pacífico da verdade, num espírito que procura a unidade de todos os cristãos.

A paz ultrapassa tudo o que nós podemos compreender dela; ela é a presença do próprio Cristo, nossa paz, em nós e entre nós. Se nós deixarmo-nos possuir por este mistério da paz de Deus, os nossos corações e os nossos pensamentos têm a certeza de estarem verdadeiramente em Deus, na comunhão com o coração e o pensamento do próprio Cristo.

Ir. Max, de Taizé - Trad.: fr. Filipe, op

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