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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Contemplação e acção

Meditação do historiador José Mattoso

Contemplação e acção ontem e hoje

 

Há cada vez mais pessoas que não estão satisfeitas com o mundo em que vivemos. Raras são, porém, aquelas que fazem alguma coisa para o transformar. Destas, umas procuram torná-lo melhor por meio do seu esforço, individual ou colectivo; outras acham que os defeitos do mundo não estão no próprio mundo, mas no olhar de quem nele vive; por isso procuram transformar-se a si próprias e mudar o olhar com que o vêem. As primeiras são partidárias da acção; as segundas confiam nos efeitos da contemplação. Ambas as atitudes são universais. Encontram-se em todas as sociedades civilizadas. Determinam os grandes princípios fundamentais das grandes religiões. O Oriente cultivou mais a contemplação; o Ocidente, sobretudo depois do século XIII, desenvolveu mais a acção. A relação do homem com o mundo deu lugar nas opções diferentes. Os programas de intervenção ou de não-intervenção diversificaram-se e evoluíram. Há, portanto, uma história da acção e da contemplação. No Ocidente essa história confunde-se com a história da Igreja, e mais precisamente, com a história das ordens religiosas, ou seja com a história do seu sucesso ou insucesso na tarefa de mudar o mundo para melhor, isto é, para resolver os problemas decorrentes da vida do homem em sociedade.

 

A minha tese, se assim lhe posso chamar, é que não basta a ação; é preciso também a contemplação. Talvez mais ainda: sem ela de nada vale a ação. Creio que a História da Humanidade mostra isso mesmo. Não a História factológica, superficial, externa, mas a História da realização das potencialidades do género humano. Ou a História da Humanidade em busca da sua plenitude. Ou a história da revelação de Deus presente na realidade concreta do mundo. (…)

 

Na Igreja do século IV, os monges do Deserto procuravam a solidão para serem o complemento do não-poder numa Igreja que já começava a ser poderosa – a Igreja constantiniana. Na transição do mundo antigo para o medieval, quando se processava a lenta e penosa reconstituição do Estado, os monges, como sinal da relação entre Céu e Terra, mostravam que nenhuma sociedade pode prescindir da ordem e da autoridade. Em plena Idade Média descobriam o papel da consciência e da emoção na comunhão com Jesus Cristo, Deus feito homem. Francisco de Assis veio coroar o progresso da via contemplativa. A sua identificação com Jesus Cristo resulta de uma experiência contemplativa muito pessoal e alimenta-se apenas dela. É ela que o torna arauto da pobreza, jubiloso intérprete do amor às criaturas, terno e misericordioso para com os fracos e doentes. Aparece como a imagem viva e palpável, da bênção de Deus sobre o mundo. É paradoxal que alguns dos seus discípulos tivessem assumido o projecto de evangelização que acabaram por subordinar a contemplação à acção.

 

Toda a obra humana, mesmo a mais espiritual, perde facilmente a sua pureza e está sujeita à ambiguidade. O Projecto de Cristandade imaginado por Inocêncio III, apesar das suas admiráveis realizações – pensemos nas catedrais góticas e na sistematização da Teologia racional – ficou aquém dos seus objectivos. O mesmo se diga do projecto tridentino, inseparável das guerras religiosas e da intolerância inquisitorial. Mas os projectos seculares de uma nova sociedade, propostos pelo iluminismo, o liberalismo, o socialismo e o comunismo, também não cumpriram a promessa de trazer o progresso para toda a humanidade e instaurar a fraternidade e a justiça universais. Eliminaram a própria noção de sagrado, sem darem conta que a sacralidade dos princípios essenciais é o fundamento dos valores de que depende a vida do homem em sociedade. Sem ela não é possível defender eficazmente a dignidade humana e o respeito pela vida. O projecto liberal criou uma sociedade sem religião, sem estrutura e sem convicções. A sociedade agnóstica realiza prodígios tecnológicos, mas não consegue evitar as catástrofes naturais, não reabsorve o lixo que produz, deixa milhões de homens morrerem à fome, recorre à tortura e à violação da consciência com medo de perder a segurança.

 

Mas é esta a realidade do homem moderno. Nunca o homem teve tanto poder e ao mesmo tempo tanta fragilidade. A globalização trouxe-lhe a consciência da sua incapacidade em resolver todos os problemas quando tudo depende só de si mesmo. As leis da proporção e da quantidade, e o exemplo de iniciativas recentes, mostram-lhe que as cimeiras dos maiores detentores do poder político, financeiro e tecnológico são impotentes para resolver os grandes problemas da humanidade. Se é assim, o homem devia recuperar a consciência da sua finitude. Os poderosos tentarão, assim se espera, resolver os grandes problemas. Mas o cidadão comum, o indivíduo, só pode resolver os problemas em que está envolvido, e tendo em conta a escala daquilo que pode alcançar: o grupo a que pertence, a família que o rodeia, o trabalho de que vive, as associações em que se inscreve, o país da sua cidadania, a ideologia ou a confissão religiosa que professa. É para com eles que deve ser responsável. É a esta escala que a mudança de olhar proposta pela atitude contemplativa lhe pode trazer uma nova esperança.

 

Com efeito, a contemplação mostra-nos a fantástica variedade, complexidade e coerência dos fenómenos da vida, da constituição da matéria, e da prodigiosa dimensão e regularidade do mundo cósmico. A contemplação intensifica a fruição da arte na música, na pintura, na poesia, no teatro e no cinema. A contemplação torna-nos sensíveis ao riso e à frescura das crianças e de tudo o que começa de novo. A contemplação faz-nos descobrir em toda a parte homens e mulheres inesperadamente inventivos, generosos e honestos. A contemplação inspira-nos o respeito e a admiração por quem é capaz de manter a dignidade face ao sadismo dos torcionários nas prisões e campos de concentração. A contemplação abre os nossos ouvidos ao clamor dos famintos e dos oprimidos em todo o mundo e em toda a História, e faz-nos partilhar com eles a compaixão pela humanidade ferida. A contemplação introduz-nos no mistério do sofrimento que se torna passagem para a ressurreição através da morte aceite e vencida, e mostra-o em Jesus Cristo, Filho de Deus, sinal da invencibilidade da vida. A contemplação associa como num único sujeito todos os homens e mulheres que desde o princípio do mundo perscrutaram o mistério do Uno e do Todo. Assim, o homem contemplativo perde o medo do futuro. Vive no presente e descobre, a cada passo, nas coisas grandes e pequenas, nas coisas boas e más, na doença e na saúde, na prosperidade e na pobreza, na paz e na guerra, a espantosa realidade das coisas.

 

Mas a contemplação é um exercício exigente. Requer a concentração, o despojamento e a solidão. Exige de quem a busca o descentramento de si mesmo. Por isso não é só um exercício de lucidez; é também uma forma de vida. Por isso há ordens religiosas que se lhe consagram inteiramente. A antiga polémica entre ordens activas e ordens contemplativas não tem sentido. O olhar abrangente e lúcido sobre o mundo diz-nos que a acção e a contemplação não devem ser exclusivas, e que é inútil estabelecer regras acerca do grau de consagração a uma ou outra. Enquanto houveres seres humanos que a ela se entregam, de alma e coração, podemos olhar sem medo para o futuro.

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