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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

convento Dominicanos do Convento de São Domingos

Artigo de António Marujo, in: Vidas de Deus na Terra dos Homens, Circulo de Leitores, 1999, 163-173.

 

 

 

 

Em Lisboa, nasceu um novo convento, o primeiro construído em mais de dois séculos. É um espaço no qual os frades que ali vivem pretendem ligar o culto de Deus à cultura humana. Uma aposta – ganha – dos autores do projecto e dos Dominicanos. A comunidade, diversificada, actualiza para os tempos de hoje a intuição da «ordem de fronteira» criada por São Domingos. Os actuais membros da Ordem dos Pregadores querem situar-se no preciso lugar «onde acaba a Igreja e começa o que não é a Igreja».

 

As escadas já não se usam assim. Imponentes, provocam o olhar de quem passa. Obrigam à pergunta. São 43 degraus que remetem para a memória de outros tempos, quando as catedrais ou as igrejas medievais se situavam no alto. E implicavam o esforço da subida.

Foi a necessidade de alterar o projecto que obrigou os arquitectos José Fernando Gonçalves e João Paulo Providência a desenhar a escada de acesso ao novo Convento Dominicano de Lisboa tal qual hoje a podemos ver.

Inicialmente, a entrada principal do convento estava prevista para o lado norte. A indefinição do destino dos terrenos impôs a necessidade de uma fachada a poente. «Foi a dificuldade transformada em desenho» que originou uma escada assim, diz o arquitecto Providência. Obrigações que vieram por bem. E, seja como for, «qualquer processo de projectação recorre à memória».

É o primeiro convento para homens que se constrói em Lisboa há 250 anos – o último foi o Convento dos Oratorianos, que hoje é o Palácio das Necessidades. Fica na antiga Rua dos Soeiros, por trás do Estádio da Luz. A ideia inicial apontava para um prazo de dois a três anos até concluir a igreja e o centro cultural. O tempo completou-se, o dinheiro não chega, para já só existe o convento.

«Conventum. Lugar de reunião, de convivência. Neste caso, de pessoas que, optando por um determinado estilo de vida em comum, aí devem passar grande parte do seu tempo de vida», definem os padres dominicanos. «Lugar de residência, mas também de actividades. Espaço enclausurado tanto quanto o exige a identidade do grupo, espaço aberto e multivalente na vocação dos que o habitam.»

 

Entremos, subindo a escada. No futuro, ela ficará com funções mais reduzidas, diluídas, com a entrada que se fará pelo poente, na livraria do centro cultural. Estamos no lado norte do convento. O grande átrio exterior à esquerda. Do lado direito, imediatamente ao cimo da escada, nasce uma galeria. É o grande elemento de ligação entre os três corpos que o conjunto terá. Só terminará na igreja. Mas o seu plano rectilíneo é interrompido a meio, virando para a esquerda.

«Funciona como estrangulamento. Depois do espaço aberto da portaria, há o estrangulamento da galeria, para que o espaço se solte de novo no átrio central», explica João Paulo Providência. O projecto é colocar-lhe um painel cerâmico, que conte a história da presença da Ordem dos Dominicanos em Lisboa.

 

Três volumes verticais 

Na zona de estrangulamento, três pequenas salas, do lado esquerdo, servem de locutório. São «ainda o mundo», definem os arquitectos. É o primeiro contacto de quem vem do exterior com os frades, é o primeiro acolhimento de quem recebe quem chega. Em frente, entra-se para o convento. Lugar de reunião, de convivência. Um grande átrio, abóbada em meia-lua, sem esquinas, 13 metros de altura. Um dos três volumes verticais que o conjunto, com uma coerência horizontal, terá na sua forma definitiva. Os outros dois são a igreja, com o tecto a 17 metros, e a biblioteca cilíndrica do centro cultural, com 15 metros.

O átrio, centro do lugar de reunião das pessoas que aqui residem, é o traço de ligação entre os outros dois componentes do conjunto: ao fundo, no topo leste, ficará a igreja. O culto. A oeste, junto da escada que subimos, será o centro cultural. A cultura. Duas das características fundamentais da Ordem dos Pregadores.

«A zona de residência, que corporiza na sua maior extensão temporal a ideia de conventum-reunião, será também o lugar onde se cruzam os discursos da cultura e do culto. Ou seja, a zona de residência deveria ser como um transmissor em dois sentidos, entre a zona das actividades (cultura) e o espaço da oração (culto).»

Assim será. No grande átrio central, provisoriamente a servir de capela, abre-se uma grande janela. Do lado de fora, o claustro, espaço de contemplação, não de passagem. Na mesma direcção, a igreja terá uma janela semelhante a romper. Nesse local, o centro geográfico da igreja, a sua zona mais baixa, ficarão os frades quando em oração. Daí poderão contemplar o claustro, olhar o átrio central, perscrutar o centro cultural.

 

A vida depositada em Deus

No átrio, dois biombos em madeira resguardam o espaço que, por enquanto, está destinado à liturgia. Os frades vão chegando, nas missas – ao fim da tarde, à semana, e de manhã, aos domingos, há sempre pessoas de fora. Três reproduções de vitrais – o Cordeiro Pascal, o Espírito Santo, a Cruz –, dois ícones – Cristo Alfa e Ómega, e a Virgem –, mais nove pequenos quadros com a vida de São Domingos dão a ambiência própria ao lugar.

«Faltavam flores», dirá frei Luís de França, actual prior, no final da vigília que, a 27 de Janeiro, assinala a festa litúrgica de São Tomás de Aquino, celebrada no dia seguinte.

No altar, uma pintura representando o Doutor da Igreja, à sua frente frei José Augusto Mourão, a quem cabe fazer a homilia, imaginando o que poderia ter sido a época do santo – debates teológicos intensos, elaboração de súmulas que definissem caminhos andados – por comparação com o que é hoje a vida, e a teologia. Onde estão os paradigmas teológicos? Impossível hoje as súmulas; tudo está fragmentado, também a teologia... Mas há uma lição, pelo menos uma, para a actualidade: «A nós, Dominicanos, não se nos diz: "Repeti São Tomás, citai infinitamente", mas antes: "Respondei às questões do vosso tempo, conciliai o eixo da visão com o eixo das coisas, traduzi."»

Nesta capela provisória, já intuímos o que será a liturgia no futuro templo: as vozes – umas vinte, mas são como se fossem dezenas – misturam-se em polifonia ensaiada, másculas, agudas, serenas, ásperas, tons vários.

O eco dá amplitude aos sons, a melodia traz a fruição estética. A fé que diz salvar devia vestir-se mais vezes com esta beleza, fazer descansar dos ritmos da vida, depositar as horas e os dias nos braços de Deus. A salvação deve ser, tem de ser uma sinfonia. Até porque, dirá depois frei Mourão, «todas as pessoas rezam, mesmo as que não acreditam».

«És tu, Senhor, que iluminas meus olhos, ó meu Deus, minha lâmpada nas trevas», cantavam os frades.

Ao lado do átrio, vive o outro grande elemento de ligação entre os diferentes espaços: a escada interior, iluminada por diferentes cores, consoante a hora do dia. Num lapso de tempo, a escadaria deixa-se encobrir com a penumbra a que as nuvens de chuva a obrigam, ou espelha os reflexos de um sol forte e quente.

Dali chega-se, atravessando o patamar, à sala de reuniões (actualmente a servir de biblioteca), à portaria e à sala de computadores. Ou, descendo, ao refeitório e, subindo, ao piso superior da galeria – que no futuro permitirá aos residentes chegarem ao centro cultural sem terem de sair à rua. Para já, ela funciona também como parte da biblioteca e dá acesso aos terraços do edifício e do claustro. Para quem gostar de perder os olhos por Lisboa inteira.

 

Alternativa ao espaço urbano

Imaginemos, olhando o projecto. Numa zona da cidade ainda por definir e caracterizar, a implantação do convento colocou desafios aos seus projectistas. Há o Estádio da Luz, há o bairro de barracas do Alto dos Moinhos, há a estação do metropolitano com o mesmo nome, há as ruas antigas confinantes com a Estrada de Benfica, no fundo da Rua dos Soeiros, esta em plena renovação. O Centro Colombo ao fundo, a Avenida Lusíada, ganhando forma, confinando a sul com o convento.

«Ainda não há um espaço urbano definido para estabelecer uma relação directa com o edifício», afirmam os autores. «Não sendo previsível o que se iria passar à volta, a opção foi fazer um edifício que funcionasse um pouco para dentro, como alternativa ao espaço urbano.» Funciona e, nesse sentido, «articula-se como um conjunto de espaços voltados para dentro».

Simultaneamente, vai poder identificar-se cada parte do conjunto: a igreja, o convento, o centro cultural, três núcleos autónomos, mas intimamente articulados. «Funcionando no percurso interno do edifício, a pessoa sabe sempre em que ponto está, pela referência aos volumes.» Cada um, aliás, terá a sua cor específica: a igreja com o cinzento do betão, o átrio central em amarelo e a biblioteca cilíndrica com o rosa de Lisboa. '

Esta última remete ainda para outras referências: muitas pessoas que vêem a maqueta lembram-se de O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Mas os arquitectos remetem para outra referência: a Biblioteca de Estocolmo, de Asplund. Embora num contexto urbano completamente diferente, é semelhante a não-definição de volume interior, de esquinas.

 

«Os do MRPP eram os mais giros»

A vida dos 19 frades (cinco estudantes, dois irmãos e 12 padres) e dos três postulantes começa às sete, quando toca a campainha electrónica. Meia hora depois rezam-se laudes, outra meia hora e toma-se o pequeno-almoço. Depois disso, cada qual segue para a sua vida: trabalho, aulas, estudo, compras para a casa. Voltam a reunir-se, alguns pelo menos, às 13h15, para o almoço. Um tempo de convívio, café, leitura de jornais antecede a tarde de estudo ou trabalho. Às 19 h, encontram-se de novo para a oração de vésperas e a missa, às 20 h jantam. Conversa, televisão, um passeio ou o estudo completam a noite.

A semana inclui algumas variantes ao horário: nas noites de segunda-feira, há reunião de toda a comunidade; às quartas-feiras, depois de almoço, ensaiam-se cânticos; no mesmo dia, às 18 h, debatem-se e preparam-se os temas para as homilias. No domingo seguinte, vários irão celebrar a missa a lugares diferentes; desse modo, há uma base comum na homilia que farão.

Como frei João Lucas ou frei Vicente, por exemplo. O primeiro, com 27 anos, é dominicano há sete e trabalha, há quatro, no Bairro 6 de Maio, na Venda-Nova. Dá catequese a adolescentes, grupos que se preparam para receber o baptismo ou fazer a profissão de fé. O segundo, com 65 anos, trabalha, já lá vão 29 anos, no Hospital-Prisão São João de Deus, em Caxias.

Todas as tardes fala com os presos, visita-os, escuta-lhes os problemas e as angústias. «Pedem tudo.» Ali contactou com gente de todas as cores: os comunistas Ângelo Veloso ou Octávio Pato, antes do 25 de Abril; agentes da PIDE, depois; também membros do MRPP, da FUP, ou Isabel do Carmo e Carlos Antunes.

«Era amicíssimo de todos», conta. E ri: «Mas os do MRPP eram os mais giros de todos.» Dos 110 presos ali hospitalizados – «há sempre gente a entrar e a sair», tem que conhecer gente nova todos os dias –, há uns 30 ou 40 que o acompanham na missa. E percebe, naquele hospital, como mudou a sociedade: dantes, morria um ou dois presos por ano; agora, chega a haver semanas em que morrem duas pessoas. Por causa da sida.

Pela reunião comunitária das segundas-feiras passa a discussão aberta sobre tudo o que se faz na comunidade, sobre tudo o que cada um faz para a comunidade. No dia 17 de Fevereiro, fala-se sobre o acolhimento e o que isso pode implicar em cada serviço da casa, desde a portaria até à pequena hospedaria, que abrange uma dúzia de estudantes na residência universitária e mais uns quatro ou cinco hóspedes adultos, muitas vezes de passagem.

«A nossa identidade está nisto: na abertura e no acolhimento», explica Filipe Correia, o responsável pelos hóspedes. «o facto de termos outras pessoas em casa é um privilégio para a nossa qualidade de vida.»

 

Os pregadores na Internet 

É essa a identidade dominicana no tempo presente? Frei Paulo Farinha, 33 anos, com 15 meses vividos na comunidade dos frades em Wakukungo (Angola), dá outro nome ao acolhimento: os Dominicanos são «uma ordem de fronteira», situados no preciso lugar «onde acaba a Igreja e começa o que não é a Igreja». É isso, afinal, que tem que ver com a missão expressa no nome da ordem: dos pregadores, da pregação.

A mesma vocação que leva esta comunidade a dar-se uma missão cultural. Ali vivem e trabalham teólogos e pensadores importantes no panorama da Igreja portuguesa – Bento Domingues, Luís de França, José Nunes, José Augusto Mourão, Raul Rolo. Ali se promovem debates sobre temas que se encontram precisamente na área da fronteira entre o sagrado e o profano: psiquiatria e fenómeno religioso, música e apocalipse, a cidade e os medos, droga e niilismo, Europa e religiões, economia e solidariedade. Ali, apesar de ainda não haver igreja, se abrem espaços para os jovens se encontrarem para conviver, para debater ou para rezar ao ritmo da comunidade ecuménica francesa de Taizé.

Mesmo assim, por causa de um «contencioso histórico» – a expressão é de frei José Nunes –, ainda há sectores da Igreja que não os olham com bons olhos: a orientação do então Instituto Superior de Estudos Teológicos, dirigido pelos Dominicanos em finais da década de 60, mereceu reservas ao cardeal Cerejeira. Daí ao encerramento da escola foi um passo. As «razões históricas estão atenuadas», mas subsistem reservas implícitas da parte de pessoas e instituições.

Ao fundo do corredor, a luz do fim de tarde entra pela janela. Por momentos, envolve de mistério este convento da era moderna. A silhueta de frei Raul Rolo, atarefado com a consulta de livros, passa em contraluz, o hábito branco obscurecendo o raio de Sol. Ser dominicano, completa frei Paulo Farinha, «é uma forma de, como cristão, me abeirar do mistério. E significa também, muito, a liberdade na Igreja: liberdade de pensar, de agir com responsabilidade». E, quem sabe, pregar isso tudo a outros, qualquer dia, se for possível concretizar um projecto: uma homepage na Internet...

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