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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Exortações à vida interior

Da “imitação de cristo” de Thomas de Kempis


 

 

Da humilde sujeição

1. Não cuides muito de saber quem é por ti ou contra ti, mas deseja e procura somente que Deus esteja contigo em tudo quanto fizeres.

2. Tem boa consciência, e Deus te defenderá.

3. Porque, àquele a quem Deus quiser ajudar, não causará dano a malícia dos homens.

4. Se souberes sofrer em silêncio, experimentarás com certeza o auxílio do Senhor.

5. Ele conhece o tempo e o modo de te valer; entrega-te, pois, em suas mãos.

6. A Deus pertence ajudar-te e livrar-te de toda a confusão.

7. Às vezes convém muito, para nos conservarmos em maior humildade, que os outros conheçam e repreendam os nossos defeitos.

8. Quando o homem se humilha pelas suas faltas, facilmente aplaca os outros, e, sem custo, lhes abranda a ira.

9. Deus protege e defende o humilde, ama-o e consola-o, inclina-se para ele, concede-lhe grandes favores, e depois da humilhação exalta-o à glória.

10. Ao humilde revela os seus segredos, e o convida e atrai docemente para si.

11. Mesmo quando é insultado, o humilde não perde a paz, porque tem a sua confiança em Deus, e não no mundo.

12. Não julgues que tens adiantado na virtude, se não te considerares inferior a todos.

 

Do homem bom e pacífico

1. Primeiro tem paz contigo, e depois poderás dar paz aos outros.

2. Mais vale o homem pacífico do que o muito letrado.

3. O homem irascível até o bem converte em mal e supõe sempre o pior.

4. O homem bom e pacífico tudo deita à boa parte.

5. Quem vive em verdadeira paz de ninguém desconfia; enquanto que o descontente e alterado anda atormentado com muitas suspeitas, e não descansa nem deixa descansar os outros.

6. Diz muitas vezes o que não devera, e deixa de fazer o que mais lhe importa.

7. Critica as acções alheias, e descuida-se da sua obrigação.

8. Tem, pois, primeiro, zelo de ti, se com direito o queres ter do próximo.

9. Sabes muito bem desculpar e dissimular as tuas faltas, mas não queres aceitar as desculpas dos outros.

10. Mais justo fora que te acusasses a ti e desculpasses o teu irmão.

11. Sofre aos outros, se queres que te sofram a ti.

12. Vê quão longe estás ainda da verdadeira caridade e humildade, a qual não sabe irar-se ou indignar-se contra ninguém, senão contra si.

13. Não é grande virtude conviver com os bons e pacíficos, que isto a todos, naturalmente, agrada, e cada um gosta de viver em paz e tem mais amor aos que são do seu parecer.

14. Porém, poder viver em paz com os ásperos e de má condição, ou com os indisciplinados ou com os que nos contradizem, é graça admirável e acção valorosa e digna de muito louvor.

15. Alguns há que têm paz consigo e com os outros.

16. Outros há que não a têm, nem a deixam ter aos demais; e, sendo molestos, ao próximo, mais ainda o são a si mesmos.

17. Há ainda outros que, tendo paz consigo, trabalham por comunica-la a seus irmãos.

18. No entanto, nesta miserável vida, a nossa paz deve consistir mais em sofrer humildemente as adversidades, do que em deixar de as sentir.

19. Quem melhor sabe sofrer, de mais paz gozará.

20. Este tal triunfa de si, é senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

 

Da pureza e simplicidade do coração

1. O homem tem duas asas para se levantar das coisas terrenas: pureza e simplicidade.

2. Há-de haver simplicidade na intenção e pureza no afecto.

3. A simplicidade procura a Deus; a pureza alcança-o e goza d'Ele.

4. Nenhuma boa obra te embaraçará, se interiormente estiveres livre de todo o afecto desordenado.

5. Se não desejares nem procurares senão a vontade de Deus e o bem do próximo, gozarás da liberdade interior.

6. Se o teu coração fosse recto, todas as criaturas te serviriam de espelho de vida e compêndio de doutrina santa.

7. Não há criatura, por mais pequena e vil, que não represente a bondade de Deus.

8. Se foras bom e de coração puro, verias e entenderias bem todas as coisas, sem dificuldade.

9. O coração puro penetra o céu e o inferno.

10. Cada um julga das coisas externas segundo as suas disposições interiores.

11. Se há alegria no mundo, possui-a com certeza o homem de coração puro.

12. E, se há tribulação e angústia nalguma parte, ninguém melhor a sente do que a má consciência.

13. Assim como o ferro, metido no fogo, perde a ferrugem e fica todo incandescente, assim o homem, que se volta inteiramente para Deus, se liberta da tibieza e se transforma em nova criatura.

14. Quando o homem começa a ser tíbio, logo tem medo ainda do menor trabalho, e recebe de bom grado consolações sensíveis.

15. Porém, logo que deveras começa a vencer-se e a andar com fervor no caminho do Senhor, tem por leves as coisas que antes lhe pareciam pesadas.

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