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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Retrato espiritual de S. Domingos

O Beato Jordão de Saxónia*, ao escrever o Opúsculo sobre as origens da Ordem dos Pregadores, faz o retrato espiritual de São Domingos, que transcrevemos:

"Mestre Domingos estava ornado de costumes tão puros, dominado por um tal ímpeto de fervor divino, que revelaram plenamente nele um vaso de honra e de graça, um vaso adornado de toda a espécie de pedras preciosas. A sua equanimidade era inalterável, a não ser quando se enchia de compaixão e de misericórdia para com o próximo. E com um coração alegre, alegrava o seu rosto (Prov. 15,13); a serenidade e o equilíbrio interiores transpareciam na hilaridade e na benignidade do seu exterior.

Mostrava tal constância no que acreditava ser do agrado divino que, uma vez tomada uma deliberação e dada uma ordem, não se conhece um só caso em que voltasse atrás.
E como a alegria brilhasse sempre no seu rosto, testemunho fiel da sua boa consciência, segundo se disse, a luz do seu semblante, no entanto, não se perdia no chão (Dan. 10,15).
Com ela facilmente atraía a si o afecto de todos; quantos olhavam para ele ficavam fascinados por ele. Onde quer que se encontrasse quer em viagem com os companheiros quer nas casas com os hospedeiros e seus familiares quer entre os magnates, os príncipes e os prelados, tinha sempre palavras edificantes e muitos exemplos, com os quais dobrava os ânimos dos ouvinte ao amor de Cristo e ao desprezo do mundo. Em toda a parte, as suas palavras e os seus actos revelavam o varão evangélico. Durante o dia ninguém havia mais acessível e afável do que ele no seu trato com os irmãos e companheiros.
Durante a noite ninguém tão assíduo nas vigílias e na oração. A vésperas dominava-o o pranto, a matinas a alegria (Sl. 29,6). O dia dedicava-o ao próximo, a noite a Deus, sabendo que durante o dia manda o Senhor a sua misericórdia e durante a noite o seu cântico (Sal. 41,11). Com muita frequência chorava abundantemente, sendo as lágrimas o seu pão dia e noite (Sal. 41,3). De dia, principalmente quando celebrava a Missa; de noite, quando se entregava mais que ninguém às incansáveis vigílias.

Havia nele o hábito muito arraigado de pernoitar na igreja a ponto de parecer que nunca ou rara vez ter tido leito fixo para descansar, pois passava a noite em oração, perseverando nas vigílias todo o tempo que o frágil corpo podia resistir. E quando sobrevinha o desfalecimento e o espírito cansado reclamava sono, então descansava um pouco, reclinando a cabeça no altar ou nalgum outro sítio, ou sobre uma pedra, como o patriarca Jacob (Gn. 28,11), para depois voltar novamente ao fervor do espírito na oração.

Todos as homens cabiam na imensa caridade do seu coração e, amando-os a todos, por todos era amado. Considerava ser um dever seu alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm. 12,15) e, levado pela sua piedade, dedicava-se ao cuidado dos pobres e desgraçados. Outra coisa o tornava amabilíssimo para com todos: procedendo sempre pela via da simplicidade, nem em suas palavras nem nos seus actos se observava o menor vestígios de fingimento ou de duplicidade.

Verdadeiro amigo da pobreza, usava sempre vestes muito pobres. Na comida e na bebida era moderadíssimo: rejeitava os acepipes delicados e gostosamente se contentava com um só prato e servia-se de vinho com água de tal modo que, atendendo às necessidades do corpo, nunca embotou a subtileza e limpidez do seu espírito.

Quem será capaz de imitar em tudo a virtude deste homem? Podemos admirá-la e, à vista dela, considerar a frouxidão dos nossos dias: poder o que ele pôde, já não é fruto de virtude humana, mas de uma graça singular de Deus que, em quem quiser, poderá reproduzir esse elevadíssimo grau de perfeição. Mas quem será idóneo para tão sublime empresa? Imitemos, irmãos, na medida das nossas forças, as pegadas paternas, dando ao mesmo tempo graças ao Redentor que concedeu tal chefe aos seus servos por Ele regenerados, e peçamos ao Pai das misericórdias que, regidos por aquele Espírito que move os filhos de Deus, caminhando pelas sendas dos nossos pais (Prov. 22,28), mereçamos chegar, sem desvios, à mesma meta de perpétua felicidade e sempiterna bem-aventurança em que o nosso Pai felizmente já entrou. Amen.

* Nascido por volta do ano 1190, conhece São Domingos em Paris, no ano de 1219. Em 1221 é nomeado, pelo segundo Capítulo Geral da Ordem, provincial da Lombardia.
No terceiro Capítulo Geral, em 1222, foi eleito Mestre da Ordem dos Pregadores e primeiro sucessor de São Domingos.
Morreu vítima de naufrágio a 13 de Fevereiro de 1237. Foi beatificado em 1837 e a sua memória celebra-se no dia da sua morte.

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