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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 36. A sobriedade e a humildade



 

 

A sobriedade é o domínio do corpo e da sensibilidade. Segundo são Paulo, a caridade não é invejosa, nem arrogante nem orgulhosa (1 Cor 13, 4). O amor da caridade, para ser verdadeiro e generoso, aceita uma certa ascese do corpo e da sensibilidade, desenvolve o espírito de sacrifício na disciplina dos sentidos. O corpo e a sensibilidade unem-nos estreitamente à criação e podem, num excesso de afeição à vida natural, dificultar a nossa união a Deus e a nossa doação aos outros. Eles tendem a inclinar-se sobre nós próprios, a fazer-nos rebuscar em nós próprios numa satisfação egoísta. A sobriedade é então uma disciplina de lembrar ao corpo e à sensibilidade que eles são também instrumentos da nossa existência para glorificar a Deus. Segundo o mandamento de Deus, o cristão deve guardar-se da cobiça ou da inveja, que podem fazer dano às aspirações legítimas do seu corpo: o alimento, a sexualidade, ou da sua sensibilidade: a possessão, a afectividade. O cristão pode usufruir livremente dos bens da criação. «Tudo é puro para os puros… quem come de tudo, é em honra do Senhor que come, pois dá graças a Deus; e quem não come, é em honra do Senhor que não come, e também ele dá graças a Deus. De facto, nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos. Ou seja, quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos» (Tt 1, 15; Rm 14, 6-8). O alimento é uma alegria legítima para o cristão, alegria humana e ocasião de acção de graças a Deus pela sua criação. Mas o cristão pode exercer o domínio sobre o corpo pela sobriedade e às vezes pela abstinência ou pelo jejum. O jejum é um sinal da nossa liberdade em relação aos bens da criação; é uma oferenda do nosso corpo, que significa que Deus nos basta e nos sacia plenamente; é uma participação na paixão de Cristo; é uma disposição em direcção ao Espírito Santo na mediação da palavra de Deus, nosso pão vivo e substancial.

O jejum não diz respeito somente ao alimento, ele pode ser também privação temporária de um prazer que nos agarra muito ao mundo e nos faz esquecer a única e verdadeira alegria de Cristo. Há uma sobriedade necessária de palavras. O homem tem às vezes a tendência de falar demais, de exprimir demais os seus desejos e inquietudes; algum silêncio pode lembrar-lhe que só Deus escuta e compreende verdadeiramente os seus problemas para lhe dar a paz pela oração. Mas o silêncio não deve ser um corte de comunhão com os homens; pelo contrário, o silêncio e o retiro temporários, o jejum de palavras, são para vivificar o nosso amor para com o outro e preparar-nos para o exprimir mais verdadeira e profundamente.

Quer na vida quer na morte, seja a vida dos sentidos seja no jejum dos sentidos, nós pertencemos ao Senhor e tudo se deve fazer em acção de graças. O cristão deve encontrar este equilíbrio entre a alegria dos bens deste mundo e igualmente o seu desprendimento deles. O sinal deste equilíbrio é a acção de graças: se o cristão fica contente e agradece a Deus de o ter feito tal como é, então encontrou o equilíbrio da vida dos sentidos.

A sobriedade deve controlar também a sexualidade dos homens e o seu desejo de possessão; nós abordaremos mais à frente estes aspectos da sobriedade quando falarmos da pureza e da pobreza. A sobriedade é igualmente uma disciplina da afectividade do homem. O desejo do amor e da afeição, o medo do abandono e da solidão, aumentam às vezes a afectividade legítima do homem. Nós vimos como a confiança pode equilibrar esta exigência de afeição. A sobriedade vai permitir ao homem aceitar e ficar aquém de uma satisfação que ele imaginará sempre absoluta e definitiva e que ele nunca poderá esperar. Só o amor de Cristo pode preencher totalmente o homem; só na medida em que o amor humano aceita o sacrifício generoso pelo outro, a simplicidade das palavras e dos gestos, pode igualmente alegrar plenamente o coração do homem. Há um jejum da afectividade que renova essa alegria e a prepara para uma alegria plena, sem ilusão de uma satisfação absoluta e definitiva. Só a ressurreição nos permitirá este amor realizado numa satisfação eterna.

A humildade é o reconhecimento que Deus é tudo, que o eu humano não é nada e que nada vale a não ser pelos dons que Deus lhe concede directamente ou através dos outros. A humildade cristã não é uma anulação da personalidade, mas a certeza de que Deus vem procurar-nos no mais profundo da nossa miséria; para sermos elevados como ele, nós devemos humilhar-nos e encontrá-lo na renúncia do nosso orgulho. O cristão não tem ilusões sobre si próprio; a convicção do seu pecado, da sua miséria, da sua fraqueza, lembra-lhe que ele depende de Deus, e dele tudo espera. O orgulho é uma ilusão de mim próprio, que se considera sempre superior ao que é na realidade. A humildade é uma visão realista do cristão sobre ele próprio.

Mas, se o cristão procura a humildade, ele encontra-a em Cristo que o exalta com ele. Com efeito, na fraqueza humana cumpre-se a força de Deus. A humildade não destrói a personalidade; pelo contrário, ela faz encontrar o caminho da verdadeiro poder, o de Deus que surge na nossa fraqueza. Aquele que, pela humildade, aceita perder a sua vida, uma vida baseada no egoísmo e no orgulho, encontra a sua vida pelo poder de Deus, uma vida igual à de Cristo em todo o seu ser.

A humildade reconhece também a superioridade da comunidade cristã, da Igreja, sobre o indivíduo. O cristão considera os outros como superiores a si, porque conhece a sua fragilidade e alegra-se com a santificação do seu próximo. O cristão não é ingrato para com Deus. Ela sabe que Cristo vive nele e que o Espírito Santo o cumula com os seus dons; ele deve saber dar graças ao Pai, humildemente, como uma prenda imerecida. Ele tem sempre presente que o seu egoísmo e o seu orgulho estão agarrados a ele e é por isso que ele está sempre pronto a reconhecer o valor dos outros maior que o seu.

A humildade, que dá glória a Deus e alegra-se da sua obra nos outros, conduz o cristão à verdadeira obediência. Porque ele sabe-se incapaz de qualquer bem sem Deus, ele deseja estar-lhe submisso em tudo e de se deixar conduzir segundo a sua vontade. Ele sabe que essa autoridade e essa vontade de Deus são-lhe indicadas pelas autoridades espirituais que realizam o seu serviço na Igreja. O cristão obedece aos seus directores espirituais, porque eles velam pela salvação da sua alma da qual eles terão que dar contas (Hb 13, 17). Ele obedece-lhe, não como aos homens, mas como a embaixadores e instrumentos do próprio Cristo. Ele discerne neles a palavra de Deus que o vem conduzir nos caminhos seguros da verdade e da caridade. Essa obediência não é uma anulação do julgamento pessoal. O cristão pode não estar de acordo com aquele que tem autoridade sobre si; ele pode seguir o seu próprio julgamento; mas ele obedece para exercer a obediência de Cristo e para se manter a unidade na comunidade cristã. Com efeito, as autoridades na Igreja são os instrumentos de Cristo ao serviço da unidade na caridade.

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe ,op)

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