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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 11. Israel



 

 

No seu desígnio de retirar o homem e a criação do domínio do pecado que os afasta dele, Deus continuou, ao longo da história, a obra de redenção da humanidade.

Desde as origens, o Criador dá esperança à humanidade pecadora que a descendência da mulher, um dia, esmagará a cabeça da serpente, o poder do mal (Gn 3, 15). Abel, representante dos primeiros homens religiosos, oferece pela fé um sacrifício agradável a Deus, apesar do pecado, e é proclamado justo pelo seu Criador (Hb 11, 4). Aqui vemos que, apesar da corrupção da humanidade, Deus mantém no coração do homem o desejo de o reencontrar e de se unir a ele pelo sacrifício. Depois do relato simbólico do primeiro homicídio, Deus coloca sobre o próprio homicida, Caim, um sinal de protecção, para que ninguém o mate (Gn 4, 15). Depois a Bíblia evoca o patriarca Henoc que, pela fé, «andou na presença de Deus» (Gn 5, 24) e «agradou a Deus» (Hb 11, 5). A sua fé consistiu essencialmente em acreditar na existência de Deus que recompensa os que o procuram (Hb 11, 6).

A evocação destas personagens e da sua relação elementar com Deus revela que o Criador não tirou partido do pecado e que, pela sua providência, ele mantém no coração do homem um desejo secreto de encontrar uma comunhão com ele.

Em seguida aparece o personagem de Noé que simboliza, também ele, a humanidade à procura de Deus e que lhe deseja obedecer. O sentido deste relato mítico é que Deus ama a humanidade e deseja, mesmo com as agitações deste mundo, salvar as suas criaturas, que por justiça ele deveria destruir, porque se revoltaram contra ele. Noé foi salvo pela fé e tornou-se herdeiro da justiça misericordiosa do seu Criador (Hb 11, 7). Deus estabeleceu uma aliança com Noé, e por ele com todos os seres vivos, e deu-lhes um sinal dessa aliança pacífica: o arco-íris, memorial para Deus e todos os seres animados, de que nunca mais nenhuma agitação cósmica poderá destruir a criação, porque o Criador quere-o arrancar das garras do pecado (Gn 9, 12-17). Assim, Noé representa toda a humanidade que procura Deus, e recebe em seu nome a segurança de que Deus se lembra de todo o ser sobre a terra, para o conduzir à paz perfeita com ele, à redenção que encontrará em Cristo o seu cumprimento definitivo.

Um dia, Abraão, seduzido pelo Criador, receberá a revelação do Deus único e tornar-se-á o representante da religião monoteísta da qual fazem parte os judeus, os cristãos e os muçulmanos. Em Abraão, os homens são chamados à fé no Deus único, contra aos desvios do politeísmo, eles são chamados à obediência da fé que executa as ordens de Deus, sem condições: Abraão parte, sem saber para onde Deus o manda, ele aceita oferecer em sacrifício o filho único, herdeiro de todas as promessas. Todos os filhos de Abraão, judeus, cristãos, muçulmanos, encontram nele, o seu pai, uma comunidade religiosa de fé monoteísta e de espiritualidade contemplativa que aceita a obediência absoluta às ordens de Deus sejam elas quais forem.

Mas Abraão é muito particularmente o pai do povo judeu que um dia encontrará em Moisés o seu salvador e legislador. Através de Moisés, Deus tira o povo de Israel do Egipto e restabelece-o na terra prometida que será o lugar onde irá então irradiar ou incarnar-se a sua Palavra. Deus escolheu, assim, um povo que é verdadeiramente o povo de Deus, a quem revelou a sua Palavra, deu a sua Leu, onde estabeleceu os sinais da sua presença: o Templo de Jerusalém e o culto litúrgico que aí se desenvolve.

Israel, povo único de Deus, tornou-se então a testemunha da Palavra de Deus no meio das nações: é o depositário da lei divina e do culto espiritual queridos e inspirados por Deus. Toda a história de Israel torna-se assim a história das relações de Deus com o seu povo, em vista da salvação universal de todos os homens. Os patriarcas, os reis, os sacerdotes, os profetas serão os portadores da Palavra do Senhor para o seu povo, para que seja permanentemente purificado para poder ser uma luz entre os outros povos. Apesar da sua infidelidade, as suas revoltas e as suas faltas, Deus continua fiel ao seu povo, segundo a promessa feita a Abraão e à sua descendência. Nunca o abandonará, jamais negará a aliança que fez com Israel, porque depositou nele a sua Palavra para esclarecer todo o mundo.

Deus fez de Jerusalém a cidade santa, e muito particularmente do Templo a sede da sua glória. Através do sinal sagrado da arca da aliança, guardada no lugar mais santo, depois sob o símbolo do lugar vazio no santuário, pelo desaparecimento da arca depois do Exílio de Israel na Babilónia, o Deus Altíssimo, eterno e todo-poderoso, manifestou a presença real invisível da sua glória. A liturgia da palavras, os salmos e os sacrifícios, exprimiam a espera do Messias-Salvador. Porque Israel, a luz das nações, foi o lugar predestinado por Deus para um dia manifestar a sua presença, já não sob os sinais litúrgicos, mas na realidade da existência do Filho no meio dos homens.

Israel, povo escolhido por Deus para iluminar o mundo, não reconheceu, como nação no seu conjunto, a Jesus de Nazaré como o seu Messias. Contudo, muitos dos seus filhos constituíram a Igreja primitiva, e por isso nós devemos a Israel um grande reconhecimento. A sua tradição teológica, litúrgica e espiritual passou para a Igreja, adaptando-se às exigências da nova pregação evangélica.

Mais ainda, há um mistério de recusa de Jesus como Messias por Israel, mistério conduzido pelo próprio Deus. Graças a essa recusa, o evangelho foi compreendido por todo o mundo. Rejeitados pelas autoridades judias da Palestina, os apóstolos partiram a evangelizar a diáspora judaica no mundo greco-romano e depois aos próprios pagãos. São Paulo mostra que «a queda dos Judeus levou à salvação dos pagãos» (Rm 11, 11) e que «a sua rejeição serviu para a reconciliação do mundo» (Rm 11, 15). Verdadeiramente, de todos os pontos de vista, como disse Jesus, «a salvação vem dos Judeus» (Jo 4, 22). Israel transmitiu-nos a revelação do Antigo Testamento, a filiação de Abração; foi nele que nasceu o Salvador; depois, pela sua própria recusa, como nação, Israel permitiu a reconciliação do mundo; finalmente a Igreja nasceu da tradição teológica, litúrgica e espiritual de Israel.

Os cristãos que não pertencem ao povo judeu são como ramos de oliveira brava enxertados no tronco original do povo de Israel. Quando os judeus chegarem à fé, e quando se cumprir a unidade total de Israel e da Igreja, será como ramos naturais que são e serão enxertados de novo sobre a oliveira original. A Igreja está, portanto, estreitamente ligada a Israel que é o tronco de oliveira originalmente escolhido. Os pagano-cristãos (de origem não judia), em que somos a grande maioria, foram enxertados “contra natura” de oliveira brava sobre a oliveira de Israel. Os judeo-cristãos (de origem judia), foram enxertados como ramos naturais sobre a sua própria oliveira que cresceu e floresceu em Igreja universal (Rm 11, 16-24). A unidade de Israel como povo total, e da Igreja, será a realização definitiva de Israel e da Igreja, com um destino comum no Reino do Messias, Jesus Cristo.

(fr. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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