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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

Uma caridade evangelizadora

Meditação do beato Carlos de Foucauld (20.02.2013)

A caridade, que é o fundamento da religião (o primeiro dever é amar a Deus, o segundo, semelhante ao primeiro, é amar o próximo como a si mesmo), obriga todo o cristão a amar o próximo, ou seja, todo o ser humano como a si mesmo e, por conseguinte, a fazer da salvação do próximo como da própria, a grande obra da vida.

Todo o cristão deve ser apóstolo: não é um conselho, é um mandamento, o mandamento da caridade.

 

Ser apóstolo, com que meios? Com aqueles que Deus põe à nossa disposição: os padres têm os seus superiores que lhes dizem o que devem fazer. Os leigos devem ser apóstolos com todos aqueles que estão ao seu alcance: em primeiro os seus familiares e amigos, mas não só esses porque a caridade não tem limites, ela abraça todos os que abraça o Coração de Jesus. Com que meios? Com os melhores, tendo em conta as pessoas a quem se dirigem: com todos aqueles com quem se relacionam, sem excepção, com a bondade, a ternura, o afecto fraterno, o exemplo da virtude, com a humildade e a doçura sempre atraentes e que são tão cristãs; com alguns, sem jamais lhes falarem de Deus ou da religião, sendo pacientes como Deus é paciente, sendo bons como Deus é bom, sendo como irmãos para com eles e rezando; com outros, falando de Deus na medida em que estejam prontos a aceitá-lo e logo que tenham em mente procurar a verdade através do estudo da religião, pondo-os em contacto com um padre capaz de os ajudar...

 

Sobretudo, ver em todo o ser humano um irmão – "Vós sois todos irmãos, tendo um só Pai que está nos céus" (cf. Mt 23,8-9). Ver em todo o ser humano um filho de Deus, uma alma remida pelo sangue de, Jesus, uma alma amada por Jesus, uma alma que devemos amar como a nós mesmos e por cuja salvação devemos trabalhar.

 

Banir de nós qualquer espírito militante. "Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos" (Lc 10,3; cf. MI 10,16), diz Jesus... que distância entre a maneira de agir e de falar de Jesus e o espírito, militante daqueles que, não sendo cristãos, ou sendo maus cristãos, vêem inimigos a combater em vez de verem irmãos doentes que é necessário tratar, feridos estendidos no caminho de quem é necessário sermos os bons samaritanos.

 

Parece-me que seria necessário que os pais nos seus lares, os padres na catequese e no ensino, todos os que têm a missão de educar as crianças e os jovens inculcassem neles, desde pequeninos, repetindo sem cessar as seguintes verdades:

 

Todo o cristão deve ser apóstolo, é um dever estrito de caridade.

 

Ser caridoso, afável, humilde para com todos os homens: foi isto que aprendemos de Jesus. Nunca ser militante com ninguém: Jesus ensinou-nos a ir "como cordeiros para o meio de lobos" (Lc 10,3; cf. Mt 10,16), e não a falar com azedume, com aspereza, a injuriar ou a pegar em armas.

 

Fazer-se tudo para todos para dar todos a Jesus tendo para com todos bondade e afecto fraternos, prestando todos os serviços possíveis, tendo um contacto afectuoso, sendo um irmão terno para com todos, para levar pouco a pouco as almas a Jesus, praticando a doçura de Jesus.

 

Ler e reler sem cessar o Santo Evangelho, para ter sempre diante do espírito os actos, as palavras, os pensamentos de Jesus, a fim de pensar, falar, agir como Jesus, seguir os exemplos e os ensinamentos de Jesus e não as práticas e os exemplos do mundo em que caímos tão facilmente, logo que desviamos os olhos do Modelo Divino.

 

Na minha opinião é este o remédio; a sua aplicação é difícil porque atinge as coisas fundamentais, os aspectos íntimos da alma e porque a sua necessidade é universal. Mas a dificuldade não deve fazer-nos desistir: quanto maior for, mais devemos meter mãos à obra e empenhar-nos nela. Deus ajuda sempre aqueles que O servem. Deus nunca falta ao homem; é o homem que falta muitas vezes a Deus! Mesmo que não tenhamos resultados visíveis, devemos continuar a trabalhar com o mesmo ardor, pois trabalhando assim, obedecemos a Deus e cumprimos a sua vontade bem conhecida.

 

(Carta de Carlos de Foucauld a J. Hours, 1912)


Carlos de Foucauld (Irmão Carlos de Jesus) nasceu em Estrasburgo, a 15 Setembro de 1858. Adolescente, afastou-se da fé da sua família tendo tido, no entanto, uma juventude normal e bem-sucedida. Depois da carreira militar, com 25 anos, foi para Marrocos, como explorador. O testemunho de fé dos muçulmanos despertou nele a questão de Deus: "Meu Deus, se existis, fazei que vos conheça". De volta à França, tocado pelo calor da sua família, começa o seu caminho de procura de Deus. Encontra-o em Outubro de 1886 aos 28 anos. "Assim que comecei a acreditar que Deus existia, compreendi que não poderia fazer outra coisa senão viver para ele". A peregrinação à Terra Santa fez nascer nele a sua vocação para imitar Jesus de Nazaré na sua vida. Passou sete anos na Trapa, primeiro em Notre-Dame des Neiges, depois em Akbes, na Síria. Posteriormente passou a viver sozinho em oração e adoração junto das Clarissas de Nazaré. Ordenado aos 43 anos (1901), foi para o Saara, viver entre os Touaregs do Hoggar. Quis viver com "os mais abandonados, dos mais abandonados". Via em cada um dos que dele se aproximava um irmão, "o Irmão Universal". Quis "anunciar o Evangelho com a sua vida" sempre com um grande respeito pela cultura e fé daqueles entre os quais vivia. Na noite de 1 de Dezembro de 1916, foi morto por um grupo que tinha cercado a sua casa. Hoje, a "família espiritual de Carlos de Foucauld" tem várias associações de fiéis, comunidades religiosas e institutos seculares de leigos e sacerdotes. Foi beatificado pelo Papa Bento XVI a 13 de Novembro de 2005.

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