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Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 34. A bondade e a confiança



 

 

A bondade é a humanidade da caridade. São Paulo cita-a como o primeiro fruto da luz: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz, pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade». Pela bondade, o cristão faz brilhar a luz da caridade nas formas e atitudes humanas. O amor da caridade pode parecer por vezes sobre-humano, difícil de realizar, para além dos limites do homem. O cristão, pelo contrário, mostra a proximidade pela sua atitude de bondade.

A alegria e a paz têm a sua fonte na fé da ressurreição; a longanimidade e a benignidade são uma participação na paciência e na humildade de Cristo na sua paixão; a bondade e a confiança estão fundadas sobre o mistério da incarnação. Porque o amor de Cristo incarnou num amor muito humano, porque Cristo confiou nos homens que o quiseram seguir, apesar da complexidade do seu pecado, o cristão manifesta o seu amor de caridade na bondade e na confiança.

A bondade cristã é uma qualidade humana transfigurada e aprofundada pelo amor da caridade. A bondade é acolhedora, simples, sem julgamentos, inocente. Ela eleva à santificação do cristão tudo o que aparentemente possa comportar de duro e desumano; ela suprime a ilusão que possa nascer no espírito de outros de que o cristão é um homem bem sucedido, sem tentações e sem problemas. A bondade, que é indulgente, coloca a caridade diante de todos, despe a santidade do seu carácter austero, torna humano o comportamento mais fiel à vontade de Cristo.

A bondade é o humor da vida cristã. Pela sua bondade, o cristão mostra-se tal qual é, sem ceder à vulgaridade e sem minimizar as exigências de Deus. A bondade faz rir o cristão dele próprio, ainda que ele tenha a tendência a tornar-se muito sério ou a dar-se muita importância.

A bondade despe a consciência de pecado de todo o excesso mórbido; ela troca a maldosa culpabilidade pelo simples arrependimento; ela ri-se dos poderes do mal vencidos por Cristo Ressuscitado.

São Paulo exprime a significação da bondade cristã, quando ele diz que a caridade tudo desculpa e tudo crê (1 Cor 13, 7). A bondade, exigente para si própria, fecha os olhos sobre as faltas dos outros, persuadida de que o amor cobre uma multidão de pecados e não pode criticar os que só Deus pode julgar. Esta bondade da caridade é também mais eficaz que qualquer julgamento, para trazer ao homem o arrependimento necessário: a bondade tudo desculpa. A bondade é condescendente. Ela está de tal modo persuadida do poder de Deus para conduzir os homens, mesmo os mais hipócritas, à honestidade com eles próprios e para com os outros, ela está certa da eficácia do amor sinceramente testemunhada, que ela considera os homens como virtualmente ganhos para a causa de Deus e do bem. Ela antecipa assim a conversão dos corações: a bondade tudo crê.

A confiança, que é uma formada fé em Deus, é optimista em relação ao homem, apesar das sinuosidades do seu coração. Cristo confia no homem para que este testemunhe o seu amor (…) O cristão confia também no próximo; como escreve são Paulo, ele espera tudo e tudo suporta do outro (1 Cor 13, 7). Com efeito, o homem é sempre um mistério e nós não poderemos racionalmente ter certeza em relação ao seu pensamento e ao seu sentimento. De certa forma, é necessário acreditar no homem, acreditar que Deus é suficientemente poderoso, a sua graça suficientemente eficaz, para podemos esperar o que o outro é realmente e definitivamente no seu coração. Por isso, pela confiança, nós estamos preparados nas nossas relações para suportar todas as decepções, frutos das aparências, e a esperar todas as vitórias, promessas da realidade.

Mesmo o amor mais profundo e a amizade mais íntima, não nos dão por si mesmo a certeza absoluta e definitiva dos sentimentos e da fidelidade do outro. As mudanças mais profundas e as mais luminosas deixam o homem numa sertã solidão e numa relativa inquietação umas em relação às outras. O próprio casamento não dá uma solução a essa solidão e a essa inquietude. Mas pela confiança o homem pode acreditar no homem, e a estar seguro da realidade do que exprimem as palavras do outro, certo de que o seu pensar e o seu coração estão bem conformados com o que ele diz. E, mesmo se o que diz excede a verdade, a confiança faz constranger o outro pelo amor a tornar realidade o que ele diz.

A confiança é a saúde de todas as relações humanas, do amor e da amizade. Sem a confiança, essas relações tornam-se inquietas e agitadas. O homem exige sempre de novo os sinais da realidade do amor e não pode ficar satisfeito se não acreditar no amor que vê. Esta exigência de verificação, pode tornar-se doentia, normalmente por causa das dificuldades do casamento e da vida sexual do homem.

Mas aquele que confia no outro sai da solidão e da inquietação. Pela força da confiança, ele fortalece o que acredita existir no outro sobre a fé das palavras e dos sinais voluntários, não passionalmente exigidos. Ele pode fiar-se nas suas impressões positivas porque elas serão certamente exactas, se ele conseguiu manter essa atmosfera de confiança criativa e vivificante.

Ele pode então tudo acreditar e tudo esperar do outro; não é ilusão mas confiança na realidade existente e vivificante que se encontra no pensamento e no coração do outro, às vezes mal exprimido. Aquele que conhece essa verdadeira confiança não está sozinho, nem inquieto, porque ele pode acreditar que o outro é semelhante a ele, no sofrimento e na alegria.

Essa verdadeira confiança tudo crê e tudo espera do outro, o que lhe permite também tudo desculpar e tudo suportar nas faltas do outro. Se o outro, pela confiança, se torna semelhante a mim, eu posso acreditar e esperar nele, no que pensa e no seu coração porque eu acredito e espero em mim próprio; eu posso desculpar tudo e suportar do outro, sem deixar de tudo acreditar e esperar dele, porque eu desculpo-me e suporto-me a mim próprio, sem perder a confiança e a esperança em mim. Tal como me conheço, posso também conhecer o outro e ter para com ele a mesma confiança que tenho para comigo; é uma aplicação do mandamento de Cristo: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». O ciúme, que se encontra às vezes nas relações afectivas entre os seres humanos e os faz sofrer pelas aparências de infidelidade forjadas pela imaginação, só se poderão apaziguar pela confiança que crê, desculpa e suporta tudo.

 

(Ir. Max, de Taizé - trad.: fr. Filipe, op)

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