Logotipo - Igreja do Convento de São Domingos
Igreja do Convento de São Domingos
Dominicanos

vela 6. Quem é Deus?



 

 

A fé em Deus é uma necessidade e um mistério. Sem a fé em Deus a existência humana é absurda. Se Deus não existe, o mundo, a natureza, o homem não tem nenhum sentido, porque não têm outro destino que a morte e a destruição. Qual o significado do nascimento e da vida de milhares de biliões de seres senão a morte? Como, por outro lado, a natureza e o homem poderiam ser constituídos numa ordem tão perfeita, ser não houvesse uma inteligência suprema para poder dirigir a criação de todos os seres e para os manter numa existência ordenada? A perfeição complicada e subtil do corpo humano, por exemplo, não poder ser só o fruto de uma simples evolução milenar, sem que um espírito superior tenha conduzido essa evolução para o acabamento maravilhoso que nós conhecemos. Sem a existência de Deus, a vida humana é absurda e inexplicável. Sem a fé em Deus, o homem deparar-se com o absurdo de uma vida inexplicável.

Mas a fé em Deus é um mistério. Com efeito, o pensamento da existência invisível, universal, eterna de Deus, situa-nos num mistério imenso. Deus não é imaginável ou concebível; qualquer representação de Deus não faz mais do que enganar e fazer-nos mergulhar num abismo de questões irresolúveis. Como imaginar um ser único que está na origem de todas as coisas, a universalidade da presença e a eternidade sem começo desse ser?

A fé em Deus situa-se entre a recusa necessária do absurdo de uma existência humana sem Deus e a compreensão racional impossível ao mistério da existência de Deus, da sua universalidade e da sua eternidade. A fé em Deus é a aceitação do mistério necessário de Deus.

É verdade que São Paulo na carta aos romanos escreveu: «O que de Deus se pode conhecer está à vista dos homens, já que Deus lho manifestou. Com efeito, o que é invisível nele - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras» (1, 19-20). Mas essa possibilidade objectiva de conhecer a existência de Deus, o seu eterno poder e divindade, só levou, por causa do pecado humano, à idolatria e à desordem moral. São Paulo descreveu longamente sobre estas aberrações.

A fé em Deus não é, pois, natural ao homem. Ele poderia, contemplando a natureza, conhecer o essencial de Deus, mas o seu pecado obscurece e engana a sua inteligência; ele só é capaz de uma religião elementar, pela qual ele deve dar glória e graças a Deus.

No entanto, esta possibilidade de conhecer Deus e de lhe render um culto espiritual revela ao homem a sua culpa.

Se tivermos em conta as religiões evoluídas, que não foram tocadas como, Israel e a Igreja, por uma revelação objectiva da Palavra de Deus e que desenvolveram um certo conhecimento de Deus, um culto espiritual, uma oração contemplativa, devemos admitir que Deus, na sua providência, agiu nesses grupos religiosos, para os preservar da idolatria grosseira e da desordem moral, para os fazer evoluir para uma autêntica espiritualidade, para os preparar para receberem um dia a mensagem de Cristo, Deus e Salvador. Quando pensamos na Índia, em particular, nas suas formas evoluídas de religião, não conseguimos reconhecer essa obra providencial de Deus.

De qualquer maneira, todo o culto, mesmo elementar, manifesta que o homem aspira a uma religião, a uma revelação com Deus, mesmo se a fé em Deus, no sentido judaico e cristão, ele não seja natural.

Assim se mostra que uma reminiscência de Deus subsiste no seu coração e produz um desejo de relação com este Deus desconhecido. Na sua bondade Deus pode dirigir esta aspiração e elevá-la a um sentimento religioso espiritual; não se trata de uma revelação mas de um benefício que Deus traz a todo o homem, porque ele não o abandonará, seja qual for o âmbito da sua existência.

Deus é único; é, portanto, para ele e só a ele que se elevam todos os cultos religiosos e todas as orações individuais. Mesmo que eles não conheçam Deus em toda a sua verdade e segundo a sua revelação, os não-cristãos que têm religião, que procuram uma relação entre o homem e Deus, pelo culto e pela oração, dirigem-se ao verdadeiro Deus, mesmo ignorando toda a obra de salvação, e Deus só pode escutá-los e conduzi-los ao conhecimento da sua graça, revelada em Jesus Cristo, na sagrada Escritura.

É por isso que a Igreja tem um julgamento positivo sobre qualquer religião espiritual, procurando discernir em todas a acção de Deus e os elementos de verdade que poderia ajudar os homens a descobrir a sua revelação.

A Igreja, que verdadeiramente «católica», que inclui na sua comunhão todo o homem que caminha para a luz e que possua qualquer centelha dessa luz, alegra-se da verdade onde ela se encontra e reconhece a obra de Deus, que veio iluminar todo o homem e conduzi-lo à plenitude da verdade.

Se o conhecimento que temos de Deus fosse só o racional humano, se nós só tivéssemos conhecimento da sua existência, da sua universalidade, a sua eternidade e o seu poder, a nossa fé elementar não nos poderia conduzir à paz e à alegria que nos dá toda a verdade. A nossa fé permaneceria no absurdo de um mundo sem Deus e na aceitação intelectual ou sentimental de um Deus desconhecido e distante, uma possível explicação do nosso destino humano. Esta não é ainda a fé cristã, que dá a paz e a alegria de um encontro pessoal e vivo com Deus revelado em Jesus Cristo e comunicado pelo Espírito Santo.

A fé cristã em Deus é muito mais do que a recusa do absurdo ateísmo e a aceitação do mistério de Deus. A fé cristã em Deus é um encontro pessoal e vivo entre o homem e Deus que tomou a iniciativa desse encontro. O carácter especial e único da fé cristã em Deus, é que ela dirige-se a um Deus pessoal, vivo e próximo: a incarnação de Deus em Jesus Cristo faz da fé cristã uma realidade específica e única por comparação com as outras fés religiosas.

 

R. João de Freitas Branco, 12, Lisboa, 1500-359 Lisboa
Tel: +351 217 228 370 | | E-mail: